A hegemonia "progressista" e o medo de ser, ou parecer, liberal

A Revista Veja desta semana traz uma excelente resenha, assinada pelo editor Jerônimo Teixeira, da autobiografia – intitulada O Chalé da Memória – do historiador inglês Tony Judt, falecido em 2010 em decorrência de uma doença neurodegenerativa diagnosticada dois anos antes.

Numa das melhores passagens da resenha, lê-se o seguinte: “Autor de Pós-Guerra, abrangente e detalhada história da Europa a partir do fim da II Guerra Mundial, Judt era um intelectual de esquerda, mas hoje talvez não fosse reconhecido como tal em um departamento de ciências humanas no Brasil. Já muito cedo deixou de rezar pela velha cartilha marxista. (…)”.

De fato, em vários dos juízos de valor nele contidos, especialmente sobre o legado da era Thatcher, Pós-Guerra: uma história da Europa desde 1945 não deixa dúvidas de que não foi escrito por um liberal. A mencionada dificuldade em associar o autor à esquerda é de outra ordem. Seu grande senso de fidelidade aos fatos faz com que invariavelmente acabe sendo tão, ou mais, crítico com as vicissitudes de matiz esquerdista; se a história fez picadinho do arcabouço teórico que ainda hoje é proclamado “progressista’ por grande parcela de nossa academia, Judt não oferece sua integridade intelectual em sacrifício para lhe dar sobrevida.

Dito isso, vamos ao ponto em que encontramos o tema lá do título. Há um trecho de Pós-Guerra, no capítulo VII (“Guerra de Culturas”), que traça um excelente panorama do cenário intelectual europeu, especialmente o francês, no fim dos anos 40 e início da década de 1950:

“… nos primeiros anos da Guerra Fria, muita gente no Oeste Europeu teria sido mais crítica em relação a Stalin, à União Soviética e aos comunistas locais, não fosse o receio de ajudar e amparar adversários políticos. Isso, também, era legado do “antifascismo”: a insistência de que “não havia inimigos na esquerda” (regra à qual o próprio Stalin, vale dizer, não prestava atenção). Conforme explicou o abade Boulier a François Fejto, ao tentar impedi-lo de escrever sobre o julgamento de (László) Rajk: chamar a atenção para os pecados comunistas é “fazer o jogo dos imperialistas”.

Esse medo de servir aos interesses anti-soviéticos não era novo. Mas no início dos anos 50 tal fator se tornara crucial nos debates intelectuais europeus, principalmente na França. Mesmo depois que os julgamentos forjados realizados no Leste Europeu finalmente fizeram com que Emmanuel Mounier e muitos integrantes da equipe da revista Esprit se afastassem do Partido Comunista Francês, estes cuidavam ao máximo para negar qualquer sugestão de que haviam se tornado “anticomunistas” – ou, pior, que tinham deixado de ser “antiamericanos”. O antianticomunismo se tornava um objetivo político e cultural em si mesmo”.

Lá se vão mais de cinquenta anos… e parece que é hoje!!! A ferocidade e cinismo do comunismo soviético saíram de cena, mas chega a ser melancólico constatar como soa próxima a formidável descrição da, vamos dizer, “alma cultural” da Europa do imediato pós-guerra feita por Judt. A hegemonia “progressista” se consolidou nos nossos ambientes acadêmico e cultural e se faz sentir especialmente no efeito provocado nos seguimentos mais bem-informados da sociedade: uma impressionante falta de independência de espírito diante dos desvarios politicamente corretos em todas as suas variantes.

Mesmo quando os arroubos censórios, o revisionismo histórico ultratendencioso, o ultraje à ideia de igualdade perante a lei e as odes ao ressentimento das minorias atingem voltagem que agride ostensivamente os nossos mais caros valores, afrontando algumas das noções mais intuitivas de civilidade,  até aqueles que se revelam sinceramente incomodados frequentemente dão mostras de altíssima preocupação em deixar claro que não são liberais, conservadores, “de direita” e por aí vai… É uma espécie de medo de perder a aura de bondade e amor à humanidade que, aprendemos desde cedo, especialmente nos bancos da faculdade, só um bom “progressista” pode ostentar.

Diante desse quadro, o alerta de Arthur Koestler transcrito por Tony Judt na abertura do Capítulo VII acima mencionado é irretocável: “Esse receio de se ver em má companhia não é indicação de pureza política; é indicação de falta de autoconfiança”.

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