"Preço justo": Chico Buarque e os escolásticos espanhóis

Felipe Dantas publicou um excelente post hoje para mostrar o quanto chega a ser absurda a idéia de que existe um preço justo objetivo para as mercadorias e quão cruel pode ser a legislação influenciada por esse tipo de pensamento. No caso, o absurdo apontado foi a prisão de funcionários de postos de combustíveis em razão do aumento de preços ocorridos durante a recente crise de abastecimento sofrida na cidade de São Paulo.

Em auxílio ao amigo e para ilustração dos leitores do blog, trago um trecho do livro Ação Humana, de Ludwig von Mises, onde ele sintetiza bem a questão da valoração e da avaliação individual na fixação dos preços (página 334 da 2ª Edição brasileira do Instituto Liberal), com meus grifos:

Em última análise, são sempre os julgamentos subjetivos de valor feitos pelos indivíduos que determinam a formação dos preços. A cataláxia [nota minha: ciência que estuda os fenômenos de mercado com todas as suas raízes, ramificações e consequências], ao conceber o processo de formação dos preços, retorna à categoria fundamental da ação: preferir a a b. Tendo em vista os erros em que freqüentemente se incorre, convém enfatizar que a cataláxia lida com preços reais, isto é, com preços que efetivamente são pagos em transações específicas, e não com preços imaginários. O conceito de preço final é uma mera ferramenta mental para abordar um problema especial, o do surgimento do lucro e da perda empresarial. O conceito de preço “justo” ou “legítimo” é desprovido de qualquer significado científico; é um disfarce para certos desejos, uma tentativa de fugir da realidade. Os preços de mercado são inteiramente determinados pelos julgamentos de valor tais como os homens os revelam ao agir

O subjetivismo na formação dos preços decorre da ação humana (ao agir, o homem sempre prefere a a b) é um componente ignorado por economistas, legisladores, burocratas e, é claro, feirantes, fazendo com que o mito do “preço justo” impregne tanto a legislação quanto o imaginário das pessoas. Exemplo genial usado por Dantas, e  que retomo aqui, é o preço do show de Chico Buarque. É na complexa confluência das preferências pessoais  que o preço será fixado, e não no valor em si do produto oferecido. As preferências sempre variam: desde pessoas que admitem até escutar giz sendo riscado num quadro (eu) do que ir a um espetáculo onde haja rimas de “casa” com “asa” ou de “sacrifício” com “mulher sem orifício”,  até aquelas que compram ingressos caros, passagens de avião e hospedagem em São Paulo para ver o Chico. Se há mais pessoas no segundo grupo, o que considero constrangedor, os preços tendem a se elevar, de modo a equalizar a quantidade de pagantes com a quantidade de assentos disponíveis na casa onde o espetáculo acontecerá. Assim, o preço não é fixado pela qualidade do show em si, ou pelo esforço particular do artista, mas pelas preferências pessoais dos ouvintes, que se dispõe, por n razões, a comprar um bilhete.

Cardeal Juan de Lugo S.J.

Mas este não é o motivo central do post, devo confessar. O fato é que Dantas indicou que a teoria do “preço justo” seria uma tara escolástica. Veja comigo no replay:

“As diversas doutrinas econômicas que persistem na tara escolástica do “preço justo” acreditam que a partir de alguns fatores (como utilidade e  tempo de trabalho gasto na produção) é possível conhecer,a priori, o “real” valor de um bem.”

Católico romano devoto, essa afirmação provocou em mim a necessidade de armar-me em defesa do magnífico edifício intelectual concebido por Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino e seus discípulos. Confesso, é verdade, que também não sou especialista nem em economia nem em escolástica, mas vagando pela internet deparei-me, meses atrás, com este excelente artigo do Instituto Ludwig von Mises Brasil, no qual Jesús Huerta de Soto descreve como os escolásticos espanhóis dos séculos XVI e XVII, na Universidade de Salamanca, lançaram as bases para a teoria liberal da economia, sendo considerados pelos próprios expoentes da escola austríaca como seus precursores históricos.

Quanto ao problema dos preços, por exemplo, o cardeal Juan de Lugo (retrato acima), em 1643, chegou à conclusão de que seria impossível ao homem chegar a um equilíbrio na consideração do preço das coisas porque havia muitas variáveis a ponderar e que, portanto, somente Deus poderia saber qual seria o preço justo de algo: Pretium iustum mathematicum licet soli Deo notum. Notável, portanto, ter ele concluído, já naquela época, que essa espécie de cálculo, da justiça ou equilíbrio do preço das coisas é complexo demais, é impossível ao homem, o que não deixa de ser uma eloqüente  advertência contra a planificação econômica do socialismo vindouro, que põe justamente no planejamento econômico sua principal ferramenta na obtenção do paraíso terrestre. Este é só um dentre inúmeros exemplos do grande progressos obtido pelos economistas escolásticos espanhóis, verdadeiros Founding Fathers do liberalismo econômico subseqüente, especialmente da própria Escola Austríaca, de modo que uma eventual propensão cristã mais primitiva na busca desse “preço justo” deve ser perdoada pelo refinado desenvolvimento posterior da escolástica, especialmente na Espanha.

Por fim, mesmo os escolásticos espanhóis diriam que somente Deus poderia explicar como alguém consegue pagar para ir a um show de Chico Buarque, no que, para minha felicidade, concordo completamente com Felipe Dantas.

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3 respostas para “"Preço justo": Chico Buarque e os escolásticos espanhóis”

  1. “A cataláxia [nota minha: ciência que estuda a ação humana]”
    Não, a praxeologia é a ciência da ação humana, a cataláxia é a teoria das relações de troca e de preço.

    1. Lucas, você tem razão.

      “O objeto de estudo da cataláxia são todos os fenômenos de mercado com todas as suas raízes, ramificações e consequências”.

      Vou corrigir a minha nota atrapalhatória agora mesmo. Obrigado

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