Hayek e as duas formas de Racionalismo (5): em defesa do racionalismo evolucionário.

Um dos princípios epistemológicos do racionalismo evolucionário é a crença em que existem permanentes limitações do nosso conhecimento factual. A abordagem construtivista leva a conclusões falsas porque as ações do homem são bem sucedidas, em boa medida, porque adaptadas não só aos fatos conhecidos, mas também a muitos outros que não se pode ou não se quer conhecer. E essa adaptação às circunstâncias gerais que cercam o homem decorre da observância a regras que ele não projetou, e frequentemente não as conhece explicitamente, muito embora seja capaz de honrar estas regras em suas ações.

A completa racionalidade de ação, no senso cartesiano, demanda completo conhecimento de todos os fatos relevantes. Um projetista ou engenheiro precisa de todos os dados e de poder total para controlá-los se quiser organizar a matéria e produzir um resultado desejado. Mas o sucesso da ação na sociedade depende de mais fatos particulares do que alguém pode conhecer. Hayek constrói uma espécie de “princípio da incerteza” no campo da filosofia social: “o fato da necessária e irremediável ignorância, por parte de todos, sobre a maioria dos fatos particulares que determinam a ação dos muitos membros da sociedade humana”.

O argumento sobre esta ignorância pode ser expandido em dois pontos:

1)      A ignorância se refere à estrutura das ações humanas, que constantemente se adaptam a milhões de fatos que, em sua inteireza, não são conhecidos por ninguém. O significado deste processo é mais óbvio e foi primeiro discutido no campo da economia. Um dos principais pontos da teoria de Hayek é que a maioria das regras de conduta que governam nossas ações, e a maioria das instituições que emergem deste ordenamento, são adaptações à impossibilidade de qualquer pessoa conhecer todos os fatos particulares na sociedade. A possibilidade de justiça reside nessa necessária limitação do nosso conhecimento sobre os fatos.

2)      Se, numa sociedade primitiva, em virtude do tamanho dos grupos e da simplicidade do modo de vida, as pessoas conheciam mais ou menos os mesmos fatos das outras, isto não ocorre na Great ou Open Society, a Sociedade Aberta na visão de Popper, conceito que corresponde às complexas civilizações modernas. Muito se falou sobre a divisão do trabalho nas sociedades modernas, mas a fragmentação de conhecimento é algo igualmente relevante. Cada membro da sociedade só pode ter uma pequena fração do conhecimento possuído por todos, sendo ignorante da maioria dos fatos nos quais toda a sociedade repousa. No entanto, é a utilização de muito mais conhecimento do que qualquer um pode possuir, e, dessa forma, o fato de que cada um se move em uma estrutura coerente, da qual muitos determinantes são desconhecidos, que constitui a característica distintiva de todas as civilizações avançadas.

Para Hayek, o erro característico dos racionalistas construtivistas a esse respeito é que eles tendem a basear seus argumentos em uma “ilusão sinóptica”: a crença na ficção de que todos os fatos relevantes na sociedade são conhecidos por uma mente, e que é possível construir uma ordem social desejada a partir deste conhecimento de particulares. Às vezes esta ilusão é expressa com uma tocante ingenuidade pelos entusiastas de uma sociedade deliberadamente planejada. As vítimas da ilusão sinóptica esquecem que estes planos devem sua aparente clareza à desconsideração, por parte do planejador, de todos os fatos que ele desconhece.

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