Hayek e as duas formas de Racionalismo (6): o real significado de “evolução”.

Na visão de Hayek, a confiança ilimitada nos poderes da ciência foi a principal razão pela qual o homem moderno tornou-se tão resistente a admitir que limitações ao conhecimento formam uma barreira permanente à possibilidade de construção racional, de planificação de toda a sociedade. Contrariamente à crença generalizada, a ciência não consiste no conhecimento de fatos particulares, mas sim no de leis gerais. Em adição, no caso de fenômenos muito complexos (como os sociais), os poderes da ciência são ainda mais limitados pela impossibilidade prática de considerar todos os fatos particulares que deveríamos conhecer para que a teoria nos desse o poder de prever eventos específicos.

Em alguns campos a ciência desenvolveu importantes teorias que dão uma boa percepção sobre a natureza geral de um fenômeno, mas que nunca produzirão previsões de eventos particulares ou uma explicação completa. O melhor exemplo disso é o neodarwinismo[1]: se fosse possível determinar os fatos particulares do passado que atuaram na seleção das mutações particulares que emergiram, seria possível não só explicar de forma completa a estrutura de organismos existentes, como também prever as evoluções futuras… O que, de fato, não ocorre.

Após o cartesianismo ter descambado para o pensamento antropomórfico, Hayek narra, um recomeço foi iniciado por Bernard Mandeville e David Hume, em decorrência mais da tradição do common law inglês (especialmente influenciados por Mathew Hale) do que das leis da natureza. Para eles, era evidente que a formação de padrões regulares nas relações humanas que não eram fruto de um projeto deliberado levantava um problema que requeria o desenvolvimento de uma teoria sistemática da sociedade. Esta necessidade foi alcançada, na segunda metade do séc. XVIII, no campo da economia, pelos filósofos morais escoceses liderados por Adam Smith e Adam Ferguson, e as respectivas consequências para o âmbito político em Edmund Burke. Depois deste começo pelos escoceses, um desenvolvimento de uma abordagem evolucionista sistemática para os fenômenos sociais teve lugar na Alemanha através de Wilhelm von Humboldt e F.C. von Savigny. Evoluções subsequentes foram feitas por Henry Maine e Carl Menger.

Um grande erro que levou à corrupção da abordagem evolucionária nas ciências sociais é a crença de que a teoria da evolução consiste em “leis de evolução”, no sentido da afirmação de uma necessária sequência de estágios através dos quais o processo de evolução deve passar, e que, por extrapolação, leva a previsões sobre o curso futuro da evolução. A teoria da evolução garante apenas uma narrativa geral de um processo cujo resultado dependerá de um grande numero de fatos particulares, excessivamente numerosos para serem conhecidos em sua inteireza e desta forma incapazes de oferecerem previsões para o futuro. Desta forma, pode-se concluir que as concepções historicistas de Comte, Hegel e Marx, com sua abordagem holística, afirmam una necessidade puramente mística de que a evolução seguirá um curso predeterminado.


[1] Neo-darwinismo é a síntese moderna da teoria da evolução, combinando: a teoria da evolução das espécies por seleção natural, de Charles Darwin; com a genética, proposta por Gregor Mendel.

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