Hayek e as duas formas de Racionalismo (7): o papel das normas na evolução concorrente da mente e da sociedade.

Os erros do racionalismo construtivista estão intimamente conectados com o “dualismo cartesiano”, concepção de que a mente possui uma existência independente da natureza e da matéria. Na verdade  a mente é uma adaptação ao meio natural e social no qual o homem vive, e  se desenvolveu em constante interação com as instituições que determinam a estrutura da sociedade. A mente é o resultado de o homem ter se desenvolvido em sociedade e adquirido gradualmente certos hábitos e práticas que aumentaram as chances de sobrevivência de determinados grupos sociais. Segundo Hayek “a concepção de uma mente já desenvolvida projetando as instituições que fizeram a vida em sociedade possível é contrária a tudo o que sabemos sobre a evolução do homem”.

Transpondo a ideia de evolução para o campo social, a herança cultural na qual um homem é nascido consiste em um complexo de práticas ou regras de conduta que prevaleceram apenas porque deram sucesso àquela comunidade da qual este homem faz parte. Tais regras não foram adotas porque já se sabia que elas iriam acarretar os efeitos desejados. O efeito deste desenvolvimento evolucionário das práticas culturais será, em primeira instância, não um conhecimento articulado, mas um conhecimento que, embora possa ser descrito em termos de regras, o indivíduo não pode enunciar em palavras, mas é capaz de honrá-lo na prática. E este conhecimento vem a governar a conduta dos indivíduos porque as ações de acordo com ele se provaram mais bem sucedidas do que aquelas de grupos humanos competidores.

O problema de alguém se comportar com sucesso em um mundo do qual cada um só conhece uma fração é então resolvido ao se aderir a um grupo de regras que lhe serve bem, mas que o indivíduo primitivo não conhece e não pode conhecer enquanto uma verdade cartesiana. É claro que em sociedades avançadas apenas algumas regras serão deste tipo (as outras serão efetivamente planejadas), mas a ordem em sociedades avançadas é em parte decorrente destas regras. Estas normas, que posteriormente Hayek denomina de “regras de justa conduta”, possuem dois atributos:

1)      Estas normas são observadas na ação sem serem conhecidas do agente em uma forma articulada (verbalizada ou explícita). Elas serão manifestadas mediante uma regularidade de ação que pode ser explicitamente descrita, mas esta regularidade não é o resultado dos agentes serem capazes de descrever as normas ou seus fundamentos.

2)      Estas normas vêm a ser observadas porque elas dão um poder superior ao grupo nas quais são praticadas e não porque este efeito é conhecido por aqueles guiados por elas.

O ponto importante é que toda pessoa crescendo em uma cultura encontrará em si mesmo normas, ou vai descobrir que ele age de acordo com normas. E, similarmente, descobrirá que as ações dos outros se conformam ou não a várias normas. Isto, é claro, não é prova de que estas normas sejam uma parte permanente ou inalterável da “natureza humana”, ou que elas sejam inatas, mas apenas prova que elas são uma parte de uma herança cultural que se apresenta consideravelmente constante, especialmente quando não são articuladas em palavras, e desta forma também não são conscientemente discutidas ou examinadas.

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