Cosmos e taxis (2): as duas fontes de ordem

A ordem, segundo Hayek, pode ter duas fontes. Ela pode vir de um arranjo criado por uma mente que dispôs todos os elementos de uma série em seu lugar, ou então dirigiu seus movimentos de acordo com um propósito prévio. Neste caso ela é designada como ordem feita, exógena, ordenação, construção, ordem artificial ou ainda, quando se trata de uma ordem social dirigida, como organização. A fonte da ordem seria a ação propositada sobre os elementos que a compõe. Por outro lado, a ordem pode ter como fonte o equilíbrio interno desses componentes surgido durante sua evolução. Neste caso chamamos a ordem de espontânea, evoluída, autogeradora ou endógena, pois a ordem é criada pela própria interação dos elementos que a compõe, sem a necessidade de uma mente para dirigi-los.

Para tornar o estudo mais rigoroso, Hayek propõe que sejam usados os termos gregos correspondentes, evitando assim uma extrapolação ou contaminação do significado estrito que ambas as ordens devem ter em sua compreensão:

(i) Taxis: a ordem criada por uma mente de forma proposital

(ii) Cosmos: a ordem espontânea gerada pela interação dos elementos que a constituem

Tendo isso em mente, o próprio desenvolvimento das teorias sociais somente foi possível quando concebeu-se que há estruturas ordenadas que são produto da ação de muitos homens, mas não podem ser creditadas a nenhuma intenção específica. Em alguns campos essa noção é universalmente aceita. A linguagem e a moral, por exemplo, muito embora tivessem sido tradicionalmente creditadas à invenção de algum gênio do passado, hoje são reconhecidas como fruto de um processo evolutivo que ninguém havia previsto.

Há, contudo, vários campos da ciência onde o fato de existir uma ordem que seja fruto da interação de um grande número de pessoas é rejeitado. A incompreensão do termo consagrado de Adam Smith – a mão invisível do mercado – usado para explicar como a interação social levava o homem a promover finalidades que sequer faziam parte de suas intenções iniciais, serve para dar exemplo de como a idéia de ordem está arraigada à noção de hierarquia e deliberação. Essa incompreensão de boa parte dos reformadores e planejadores, que acusam a economia de caótica, deve-se justamente pela incapacidade de enxergar uma ordem que não seja fruto de uma construção deliberada.

O motivo dessa incompreensão, diz Hayek, é que as ordens espontâneas não se impõem à nossa percepção sensorial de modo tão evidente quanto às ordens criadas, sendo antes necessário um pequeno esforço intelectual para que as nuances e sutilezas da interação social possam ser captadas, em um esforço de reconstrução imaginária; ao contrário dos elementos de uma ordem criada, que são passíveis de percepção intuitiva. Assim, também é possível encarar as ordens espontâneas (cosmos) como abstratas e as criadas (taxis) como concretas.

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