Cosmos e taxis (6): ordem espontânea, indivíduos e organizações

Hayek defende que em qualquer grupo de homens suficientemente numeroso haverá colaboração tanto por meio das ordens espontâneas quanto por meio de organizações [intencionais]. Ele admite que a organização é o método mais poderoso e eficaz para muitas tarefas limitadas, dada a possibilidade de maior controle sobre o resultado da ordem. Contudo, para aquelas ordens cujo grau de complexidade fuja de nossa capacidade, a confiança nas ordens espontâneas é uma necessidade.

Tarefas limitadas: maior eficiência das organizações, pois a limitação das possibilidades permite uma maior adaptação da ordem.

Sistemas complexos: maior eficiência das ordens espontâneas.

Não é possível, entretanto, combinar as duas formas de ordem pela nossa livre vontade, independentemente da complexidade do sistema. Isto acontece porque com a criação de várias organizações sempre haverá a interação entre elas, cuja coordenação somente é possível pelas forças indutoras de ordens espontâneas. Segundo Hayek, “a família, a propriedade rural, a fábrica, a pequena e a grande empresa e as diversas associações, e todas as instituições públicas, entre as quais o governo, são organizações que, por sua vez, estão integradas numa ordem espontânea mais abrangente”. Em outras palavras, a sociedade [Grande Sociedade] é justamente a ordem espontânea que congrega todas estas demais organizações. Haverá, contudo, grupos de pessoas e organizações mais estreitamente relacionados que ocupam posição central em uma ordem menos articulada porém vasta. Estas sociedades surgem como resultado de proximidades espaciais ou qualquer outra circunstância especial.

O governo é uma das organizações existentes dentro da Grande Sociedade que ocupa uma posição muito especial, pois embora seja possível uma sociedade sem governo, geralmente a necessidade de normas para a sua própria formação impõe que haja algum mecanismo que garanta a observância destas normas. É feito um paralelo entre as funções do governo e a equipe de manutenção de uma fábrica: não deve ser objetivo da equipe o fornecimento do produto, mas garantir que os mecanismos de produção estejam operando em boas condições, numa alusão de que a princípio não é função de nenhum governo fornecer bens e serviços. Esse governo deverá, segundo excepciona Hayek, proporcionar somente aqueles serviços cuja ordem espontânea não tem condições de fornecer. A diferença entre essas duas funções do governo é essencial, porquanto neste último caso ele é apenas mais uma organização, enquanto que na primeira função abordada ele é quem garante a própria sustentação da ordem.

A utilização, do termo “estado” (de forte conotação metafísica) na tradição continental européia, fortemente influenciada por Hegel, deve ser evitada. O termo “governo” é muito mais apropriado, dado que as políticas e ações são sempre tomadas por uma organização, e “governo” reflete melhor essa idéia do que o distante e ascético “estado”. Dito de outra forma, é mais claro dizer que o governo é responsável pela manutenção das estradas do que o estado. O governo é exercido pelos dignitários, o estado é objeto de teses filosóficas.

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2 respostas para “Cosmos e taxis (6): ordem espontânea, indivíduos e organizações”

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