Cosmos e taxis (8): organismos e organizações

Ao final do capítulo intitulado “Cosmos e taxis”, Hayek discorre sobre os termos usados nos séculos passados para tratar da distinção entre ordens espontâneas e ordens criadas. Segundo ele, no final do século XIX havia uma contraposição entre “organismo” e “organização”, contudo não devemos usar o primeiro e o segundo apenas em determinado contexto.

Desde a Antigüidade era comum usar o termo organismo para referir-se a uma ordem espontânea, já que eles era a única forma de ordem espontânea de conhecimento geral. Tal circunstância fez com que vários termos fossem emprestados para tratar das ordens espontâneas. como, por exemplo, “crescimento”, “adaptação” e “função”. Entretanto, segundo Hayek, dado que os organismos diferem em alguns aspectos essenciais das ordens espontâneas estudadas, a analogia mais atrapalha do que ajuda. A diferença básica dos organismos é que os elementos individuais que os constituem tendem a assumir uma função definitiva na medida de seus desenvolvimento e, além disso, são sistemas, de certo modo, mais ou menos constantes.

Deste modo, a analogia da sociedade com um organismo tende a corroborar certas idéias autoritárias de hierarquia que não tem sustento na idéia geral de ordem espontânea. Essa interpretação de que os indivíduos possuem posições fixas na sociedade de acordo com sua funcionalidade deve ter sua utilidade para teoria geral da sociedade questionada porque gera uma inadequação entre a concreta disposição dessas funções na sociedade e o caráter abstrato que esta possui em razão de sua espontaneidade. Foi justamente esta interpretação errônea que cunhou o aspecto negativo da palavra ordem como sinônimo de sociedade na qual os indivíduos possuem funções hierarquizadas.

Organização, por sua vez, é de origem relativamente recente. Segundo Hayek, ela passou ao uso geral primeiramente pelos franceses na época da Revolução Francesa, tendo ela se tornado típico do espírito napoleônico como conceito central dos planos de reconstrução da sociedade. Naquela época a palavra organização era usada para exatamente aquilo que hoje em dia seria descrito como socialismo. Os ingleses passaram a usar o termo de forma geral em 1790 como um termo técnico para “ordenação sistemática para um propósito definido”. Os alemães adotaram o termo com especial entusiasmo, chegando a competir com os franceses, durante a Primeira Guerra Mundial, para ver qual sociedade detinha o “segredo” da organização.

No presente estudo, Hayek restringe o sentido de organização apenas para aquelas ordens deliberadamente criadas e jamais para as ordens espontâneas. Segundo ele, apesar da organização ter sido uma descoberta importante relacionada à potência do intelecto humano, justamente por ignorar suas limitações no campo das ordens espontâneas é que o termo organização deve ter seu uso restringido, dado que a única possibilidade de transcender a essas limitações reside nas forças espontâneas da sociedade, e não na potência do intelecto humano.

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