Princípios e oportunismo (3): As “necessidades” da política de governo são geralmente conseqüência de medidas anteriores

A freqüente alegação de que certas medidas políticas foram “inevitáveis”, tem um curioso duplo aspecto: quando se está tratando dos desdobramentos tidos como positivos dessas medidas, quem a utiliza normalmente a aceita prontamente, e inclusive a usa como justificativa de suas ações. Mas quando os fatos tomam um rumo indesejável, desdenha-se a idéia de que esses maus resultados são efeitos necessários das decisões que “tinham que ser adotadas”, e não decorrem, portanto, de circunstâncias que escaparam de nosso controle.

A verdade, porém, é que a maioria das “necessidades” da política governamental são criação nossa: o motivo para que certas medidas pareçam “inevitáveis” é em geral algum efeito das nossas ações anteriores e das opiniões do momento. Hayek, então, brinca: “sou suficientemente idoso para ter ouvido muitas vezes, de homens mais velhos, que certas conseqüências de sua política, que eu previa, jamais ocorreriam; e mais tarde, quando elas de fato ocorreram, para ter ouvido, de homens mais jovens, que essas mesmas conseqüências tinham sido inevitáveis e totalmente independentes daquilo que de fato tinha sido adotado”.

Acontece que ao homem moderno parecem intoleráveis as idéias de que não podemos compor uma ordem social desejável como um mosaico, selecionando livremente os elementos de nossa preferência, e de que muitas medidas bem-intencionadas podem ter uma longa série de conseqüências imprevisíveis e indesejáveis. Foi-lhe ensinado que pode alterar à vontade tudo o que ele mesmo fez, e que, inversamente, tudo o que pode ser alterado deve também ter sido feito por ele. Entretanto, o fato é que não podemos obter um conjunto coerente pela simples combinação de elementos que são do nosso agrado porque a adequação de qualquer ordenação específica dentro de uma ordem espontânea dependerá de todo o restante desta, e porque qualquer mudança específica que introduzirmos pouca informação nos dará sobre o seu funcionamento num contexto diferente. É ilusório esperar que possamos construir uma ordem coerente por experimentação aleatória, com soluções específicas para problemas individuais sem seguir princípios norteadores. Uma ordem tão complexa como a sociedade moderna não pode ser criada intencionalmente nem como um todo, nem pela montagem de cada parte em separado sem se considerar o restante, mas somente pela adesão sistemática a certos princípios ao longo de todo um processo de evolução.

Isso não significa que esses princípios devam necessariamente assumir a forma de normas expressas. Frequentemente, orientam a ação de forma mais eficaz quando se manifestam como mero preconceito irrefletido, como uma sensação geral de que certas coisas “não se fazem”.  Tão logo são explicitamente formulados, começa a especulação sobre sua correção e validade.

Hayek ensaia, então, um instigante paralelo histórico: os ingleses do Século XVIII, por serem pouco dados à especulação acerca de princípios gerais, com seu dom de “alcançar um resultado satisfatório sem muito esforço intencional ou planejamento definido”, deixaram-se guiar por sólidas idéias quanto às modalidades de ação política permissíveis muito mais que os franceses, à época tão arduamente empenhados em descobrir e adotar tais princípios, cheios de preocupação com pressupostos explícitos e formulações claras. A verdade parece ser que, embora pouco discutissem princípios, os ingleses eram muito mais firmemente norteados por eles, enquanto na França a própria especulação acerca de princípios básicos impedia que qualquer conjunto de princípios criasse raízes mais firmes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s