Hobsbawm, cangaço e método histórico

De mortuis et absentibus nil nisi bene loqui decet: dos mortos e ausentes só se deve falar bem. Para ser fiel à sabedoria da citação não se exige que se minta. Devemos lamentar o falecimento de Eric Hobsbawm, como o de qualquer ser humano, mas algumas coisas devem ser ditas sobre a obra do historiador. Já li alguma coisa dele. Não posso deixar de reconhecer que a disseminação da coleção “A Era d…”  foi seminal para fomentar o interesse pelo estudo da história pela minha geração de estudantes secundaristas natalenses com poucos recursos em uma era pré-web.

Pelo fim da faculdade tive contato com a obra “Bandidos”, um aprofundamento de outro livro anterior, “Rebeldes Primitivos” no qual se disserta sobre o banditismo rural em diversas culturas e épocas históricas mundo afora. O que me incomodou foi o tom condescendente em excesso e ingenuamente romântico para com a criminalidade, algo que, à época, comecei a associar com os desvios morais das ideias de esquerda. Se o indivíduo é apenas um boneco de barro na descrição materialista da história, certamente suas ações não podem receber nenhum juízo de reprovação. Na cabeça de Hobsbawm, todo bando de arruaceiros pé-rapados tinha um pouco de Robin Hood e seus “merry men”:

“O ponto sobre bandidos sociais é que eles são criminosos camponeses a quem o senhor feudal e o Estado enxergam como criminosos, mas que permanecem dentro da sociedade camponesa, e são considerados por seu povo como heróis, como campeões, vingadores, lutadores pela justiça, talvez até mesmo líderes de libertação e, em qualquer caso, homens para serem admirados, ajudados e apoiados. Esta relação entre o camponês comum e o rebelde, bandido e ladrão é o que faz o banditismo social interessante e significativo.”

Hobsbawm associa esse certo “papel libertador” dos maloqueiros ao dos sindicatos modernos – como se o cangaço e congêneres tivessem algum papel de representação da população rural. Um dos discípulos de Hobsbawm até escreveu uma obra sobre Lampião.

Ainda que discordasse nesse particular, a leitura de Hobsbawm serviu-me pelo menos para abrir os olhos sobre o porquê de os nordestinos serem tão fascinados pelo cangaço. Na verdade, o que fascina é essa visão romantizada que as escolas nos passam desde a tenra infância. Os profissionais da educação leem Hobsbawm, se convencem das qualidades do cangaço, e repassam isso para as crianças, fantasiando-as de bandoleiros no São João. O establishment cultural do país se convence também, e haja cineastas filmarem heróis cangaceiros, e o artesanato local vive de vender representações de cangaceiros… Nossa cultura tradicional, especialmente a cultura sertaneja, da civilização do couro dos planaltos nordestinos acaba por se confundir com a cultura da bandidagem. O que é um absurdo, especialmente em um estado da federação que teve o mérito de impingir a primeira grande derrota a Lampião. No fim, as pessoas não percebem os efeitos deletérios dessa postura de que “o cangaço é coisa nossa”. Ao assumirmos estes símbolos, estes valores, esta iconografia, contribuímos, ainda que sem querer, para a visão que o restante do país tem dos nordestinos como violentos, e inimigos da propriedade alheia e do trabalho.

Embora nitidamente materialista, Hobsbawm não se valeu do método dialético para descrever a história, e, nesse sentido, embora fosse um “marxista acadêmico” não foi um “historiador marxista”. O que lhe garantiu que, pelo menos, fosse levado a sério.  O problema é, de acordo com o também historiador Tony Judt, que “a postura política de Hobsbawm impediu a distância analítica que ele tem do século 19: ele não é tão interessante sobre a revolução russa, porque ele não pode libertar-se completamente da visão otimista dos anos anteriores. Pela mesma razão, ele não é tão bom sobre o fascismo.” Para Judt, Hobsbawm “se apega a uma ilusão perniciosa do Iluminismo tardio: que, se alguém pode prometer um resultado benevolente, vale a pena o custo humano. Mas uma das grandes lições do século 20 é que isso não é verdade… um escritor lúcido, ele parece cego para a escala do preço pago. Acho que é trágico, mais do que vergonhoso.”

Vale a pena também ver ler este trecho do filósofo John Gray, resenhando um dos últimos livros de Hobsbawm:

 Se A Era do Capital (1975) e A Era do Império (1987) são obras fundamentais de história, um dos motivos para isso é o profundo conhecimento que elas mostram sobre as interações de ideias com o poder. A grande fraqueza de Hobsbawm é que ele optou por não aplicar o mesmo entendimento histórico para o período entre 1914 e 1991 – a era que ele chamou de “o curto século 20”, em que o comunismo chegou ao poder em muitas partes do mundo e depois desapareceu, deixando apenas um rastro de ruínas. Seus escritos sobre esse período são banais ao extremo. Eles também são altamente evasivos. Um vasto silêncio envolve as realidades do comunismo”.

Ensaiando outra versão do clichê, Hobsbawm diz que “a Rússia não se tornaria capitalista liberal”. A implicação clara é que, ao final, ao fim dos tempos czaristas, a Rússia foi levada a um curso que conduziu inexoravelmente a ditaduras do tipo que Lênin e Stalin praticaram. Pergunta-se como ele pode ter tanta certeza disso. Mais ao ponto, é impossível conciliar esta narrativa convencional com as ditaduras que foram uma característica de cada regime comunista – e não apenas na Rússia, mas em toda Europa Oriental e na Ásia Central, China, sudeste da Ásia, África e América Latina. Foram os povos destas terras, com suas histórias muito diferentes, culturas e níveis de desenvolvimento, todos infalivelmente atrasados ​​e semibárbaros? Ou foi a visão de Marx de uma sociedade pós-capitalista falha desde o início? Estas são perguntas que Hobsbawm nunca confrontou. Se ele o fizesse, seria forçado a aceitar que toda a sua vida política foi fundada sobre uma ilusão gigantesca.

 

 

 

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7 respostas para “Hobsbawm, cangaço e método histórico”

  1. Fala uma coisa cidadão: Para escrever tanta merda assim tem gente muito mais competente do que vc. Os jornalistas da Veja, por exemplo… Lá, pelo menos, eles adicionam umas figurinhas, desenho e fotos para os seus “leitores”…,e se a Veja já é motivo de piada, imagine um texto medíocre em um site perdido na net….
    Pelo amor de Deus, cabra, Hobsbawm é um GIGANTE. ETERNO.
    E nem vou me referir ao seu tamanho, porque não há sobre o que falar, não é mesmo?
    E agora parabéns, uma pessoa leu e comentou o seu texto.
    Legal né?
    Guarde e mande emoldurar. Foi seu momento de repercussão intelectual!

    1. Marco, primeiro, eu não sou “cabra”. Porém, o seu uso em público de uma expressão racialmente e regionalmente derrogatória bem demonstra o tipo de pessoa que você é… Aparentemente, na sua visão de mundo, “pessoas de estatura”, tais como jornalistas do sudeste e acadêmicos estrangeiros têm direito de se expressar, mas de um “cabra nordestino” espera-se que se recolha “à mediocridade” em um “lugar perdido”. Ultimamente, este tipo de opinião vem dando até cadeia…
      Bem, se gente muito mais competente, e que ganha para fazer isso, escreveu a mesma coisa que eu, é sinal que estou fazendo algo certo, não? (E olhe que escrevi isto aqui antes da crítica de Veja). Ignoro o que leva alguém a ser deliberadamente ofensivo e a se jactar de nos dar alguma “repercussão”, atribuindo a si mesmo magnanimidade e autoridade sobre o tema, esta última aparentemente inexistente – senão teria discutido conteúdo e não forma. Para reclamar APENAS da nossa editoração franciscana, é necessário ser tão rude?
      Se a literatura do senhor se resume a textos com gravuras, ao ponto de dar mais valor a elas do que a argumentos, sinceramente não sei o que veio fazer aqui. Enfim, seu comentário vale ser publicado para demonstrar duas ou três falácias de argumentação. Volte quando aprender a debater.

      1. Gostei do texto e da réplica, mas abomina a ameaça. A luz emerge da dialética. Sem a discussão, resta a prepotência. Humildade é o caminho.

  2. O Marco não entendeu porque não tinha desenho nem figurinha… libera aí um desenho pra ele, não sejam injustos!
    P.S.: Está pra sair uma edição de Hobsbawm em quadrinhos. 😉

  3. Logo no começo achei interessante o termo desvios morais(?) da esquerda, numa clara alusão de que ser de esquerda é ser imoral ou não ter moralidade. O que é mais interessante é saber qual é o tipo de moralidade adotado como critério….Também achei interessante no título haver o termo método histórico. Pensei que fosse encontrar subsídios para uma farta discussão metodológica, SQN. O que encontrei foi só mais do mesmo: termos rasos, arrogância, julgamentos….sem base metodológica, apenas achismos….tenho vários achismos históricos sobre o Direito , inclusive o fato do nosso direito ser fruto de estudantes de Coimbra.Instituição portuguesa que não aceitou a Ilustração. Ainda posso acrescentar que, o nosso código civil tem uma base medievalesca, já que apoia-se em sua essência nas ordenações manuelinas….tsc,tsc. Não metamos a colher na área dos outros sem que haja um aprofundamento de leitura. Não façamos julgamentos com bases fracas, apoiadas em momentos tensos e nebulosos, marcadamente fascistas e rasos em discussões. OK? Tenho críticas sim ao materialismo histórico adotado por Hobbsbawm, tenho base para isso, uma vez que conheço profundamente as metodologias históricas de análise, bem como não estabeleço julgamentos “morais”, analiso uma ciência e não uma pessoa.Caro ser, atenha-se a sua insignificância de leitor, mero leitor e modifique seu título, que sugestiona uma profundidade que seu parco e raso artigo não atingiu.

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