Sobre o que distingue o Liberalismo de outras ideologias. Ou: o valor supremo da liberdade

O filósofo Luiz Felipe Pondé, no dia 24 de setembro, publicou artigo na Folha de São Paulo intitulado “Contra os comissários da ignorância”, em que, à semelhança do que o amigo Odinei Draeger fizera aqui no dia 05 do mesmo mês, delineia um excelente panorama da tradição liberal-conservative, odiada e estudada no Brasil em razões inversamente proporcionais.

Os textos têm eixos um pouco diferentes, embora ambos comecem rendendo as merecidas honras à obra de Russel Kirk. Aquele publicado aqui por nós ensaia sobre os princípios ou fundamentos do pensamento conservador. O de Pondé, por sua vez, fornece como que uma “breve História” dos referenciais teóricos desta tradição, apontando quando e como se diferencia da “falsa ciência política, a da esquerda”.

Há um trecho em especial do artigo de Pondé que me pareceu bem elucidativo e segue transcrito:

Enquanto os britânicos se preocupavam em pensar uma “sociologia das virtudes” e os americanos, uma “política da liberdade”, inaugurando a moderna ciência política de fato, os franceses deliravam com uma razão descolada da realidade e que pretendia “refazer” o mundo como ela achava que devia ser e, com isso, fundaram a falsa ciência política, a da esquerda. Segundo Himmelfarb, uma “ideologia da razão”.

O pensamento conservador se caracteriza pela dúvida cética com relação às engenharias político-sociais herdeiras de Jean-Jacques Rousseau (a “ideologia da razão”).

Marx nada mais é do que o rebento mais famoso desta herança que costuma “amar a humanidade, mas detestar seu semelhante” (Burke).

O resultado prático desse “amor abstrato” é a maior engenharia de morte que o mundo conheceu: as revoluções marxistas que ainda são levadas a sério por nossos comissários da ignorância que discutem conservadorismo na cozinha de suas casas para sua própria torcida.

(…).

A dúvida conservadora é filha da mais pura tradição empirista britânica, ao passo que os comissários da ignorância são filhos dos delírios de Rousseau e de seus fanáticos.

No século 20, proponho a leitura de I. Berlin e M. Oakeshott. No primeiro, “Estudos sobre a Humanidade” (Companhia das Letras), a liberdade negativa, gerada a partir do movimento autônomo das pessoas, é a única verdadeira. A outra, a liberdade positiva (abstrata), decretada por tecnocratas do governo, só destrói a liberdade concreta.

Faz parte, portanto, do espectro do pensamento liberal-conservador a rejeição à pretensão de engenharia social fundada em ideologias abstratas dissociadas da realidade material e moral das pessoas. Foi pensando nisso que, ao elaborar a minha apresentação aqui no blog, aludi ao liberalismo jurídico como “… um norte insuperável, por conferir aos indivíduos concretos precedência em relação a concepções abstratas de justiça ideológica”. Havia, à época, acabado de concluir a leitura do magnífico Os intelectuais, de Paul Johnson, que examina as credenciais desses badalados pensadores seculares – de Rousseau a Chomsky, passando por Marx, Tosltoi, Brecht e Sartre, dentre outros – e demonstra o perigo que representa esse grupo que dá mais valor aos conceitos que às pessoas, fornecendo as bases para “o pior dos despotismos”, que “é a insensível tirania das idéias”.

É preciso, porém, deixar claro que o vai acima não é uma negação da dimensão ideológica do próprio liberalismo, evidenciada particularmente no capítulo III do Volume I de Direito, Legislação e Liberdade, de Hayek – o qual vem sendo resumido aqui.

E aí há de se fazer mais uma ressalva: reconhecer e afirmar o que há de ideológico no liberalismo nem de longe implica em proclamar um empate com as correntes que no Brasil se convencionou chamar de progressistas, como faz logo o relativista apressadinho. Não se trata de coisas semelhantes com apenas o “sinal trocado”, mas, antes, de correntes de pensamento que, embora guardando essa semelhança de forma, afastam-se de maneira monumental e inconciliável no conteúdo, bem como, consequentemente, no alcance explicativo e, como dá testemunho a História, nos resultados propiciados por sua observância.

O liberalismo concede ao valor “liberdade” um status supremo por reconhecer essa como a única forma de impedir a gradativa destruição da própria liberdade. Parte da constatação de que ordens espontâneas como as complexas sociedades modernas só podem ser aperfeiçoadas se for garantida a possibilidade de que seus integrantes usem o próprio conhecimento em função de seus propósitos individuais. Essa percepção de que direito e liberdade são inseparáveis é justamente o que sempre impediu e ainda impede que, nas sociedades mais acentuadamente liberais, sejam formadas ondas de opinião e ortodoxias dominantes capazes de gerar ações destrutivas em série como as que marcaram e ainda marcam as sociedades orientadas pelo ideal de recriação do mundo, se preciso, “na marra”, que caracteriza a tradição esquerdista.

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