Princípios e oportunismo (5): o realismo espúrio e a coragem necessária para ousar a utopia

“A palavra utopia, como ideologia, tem hoje conotação negativa; e, de fato, a maior parte das utopias visa a um replanejamento radical da sociedade e sofre de contradições internas que impossibilitam a sua realização. Contudo, uma visão ideal de uma sociedade não totalmente realizável, ou uma concepção que aponte a ordem global a ser alcançada, é não apenas a precondição indispensável a qualquer política racional, como também a principal contribuição que a ciência pode dar à solução dos problemas da política prática”.

Vejamos o caminho que Hayek percorre para chegar à conclusão acima.

No tocante às ordens espontâneas complexas, só seremos capazes de determinar os princípios gerais de seu funcionamento, não podendo prever todas as modificações particulares que resultarão de qualquer ocorrência no ambiente. Isso tem profundas conseqüências no que concerne à política governamental, pois significa que, quando nos apoiamos nas forças ordenadoras espontâneas, seremos muitas vezes incapazes de prever as alterações específicas pelas quais se produzirá a necessária adaptação às novas circunstâncias externas; por vezes, sequer saberemos de que maneira se poderá obter a restauração de um “equilíbrio” ou “estabilidade” perturbado. Essa ignorância sobre como a ordem espontânea resolverá tal “problema” – que de alguma forma terá de ser resolvido para que a ordem global não se desintegre – muitas vezes gera pânico e a reivindicação de que o governo intervenha para restabelecer o equilíbrio perturbado.

Em geral, é até a percepção incompleta do caráter da ordem geral espontânea que leva as pessoas a solicitarem controle deliberado. Enquanto a balança comercial ou a correspondência entre oferta e procura de qualquer mercadoria se ajustavam espontaneamente após um distúrbio qualquer, os homens raramente se perguntavam como isso ocorria. Mas tão logo se tornaram conscientes da necessidade desses constantes reajustamentos, começaram a pensar que se devia atribuir a alguém a responsabilidade de produzi-los deliberadamente. O economista só podia se contrapor a esse temor afirmando que o novo equilíbrio demandado se estabeleceria de algum modo desde que não houvesse interferência nas forças espontâneas, mas como geralmente lhe era impossível prever exatamente de que modo isso aconteceria, suas afirmativas acabaram não sendo muito convincentes.

Contudo, pior ainda é quando é possível prever a forma como as forças espontâneas restaurarão o equilíbrio perdido. Como a necessidade de adaptação implica sempre algum sofrimento, frustração de expectativas ou o malogro de alguns esforços, gera-se a reivindicação de que o ajuste necessário seja feito por orientação deliberada, ou seja, cabendo à autoridade decidir quem será prejudicado. A conseqüência é que, frequentemente, os ajustamentos necessários são impedidos quando podem ser previstos.

A maior contribuição que a ciência pode dar à política é a compreensão da natureza geral da ordem espontânea, e não um conhecimento qualquer de detalhes de uma situação concreta, que, aliás, a ciência não tem nem pode ter. Essa percepção, que era bastante difundida no século XIX, foi ofuscada por uma nova tendência derivada de um equívoco, bastante em moda hoje: a suposição de que a ciência consiste numa coleção de fatos particulares observados. Ora, todos os eventos que têm lugar em qualquer parte de uma ordem espontânea complexa são interdependentes, de modo que uma ordem desse gênero não possui partes concretas que possam ser identificadas por atributos individuais. É inútil tentar descobrir, pela observação, regularidades em qualquer uma de suas partes. A única teoria que pode reivindicar um status científico nesse campo é a da ordem global, a qual, embora precise ser testada, nunca pode ser elaborada indutivamente pela observação, mas só através da construção de modelos mentais constituídos a partir dos elementos observáveis.

A visão míope da ciência que se concentra no estudo de fatos particulares – errônea inclusive quanto à ciência em geral – nos priva de toda orientação eficaz para uma ação bem-sucedida. Esse “realismo espúrio”, que se limita a um exame de técnicas específicas para a obtenção de resultados específicos, é, na verdade, extremamente irrealista.  Trata-se de postura que – especialmente quando conduz, como ocorre frequentemente, a uma avaliação de conveniência de medidas específicas de acordo com a sua “viabilidade” num dado clima de opinião política – tende a nos impelir ainda mais para um impasse e a destruir a ordem global.

É inegável que, em certa medida, o modelo formado pela ordem global é sempre uma utopia, algo de que a realidade apenas se aproximará parcialmente e que muitos considerarão totalmente inviável. Entretanto, só a adesão permanente a uma tal concepção norteadora, mediante a aplicação sistemática dos mesmos princípios, permitirá chegar a algo semelhante a uma estrutura eficaz para uma ordem espontânea. Adam Smith escreveu que “esperar, de fato, que a liberdade de comércio venha um dia a ser inteiramente restaurada na Grã-Bretanha é tão absurdo quanto esperar que nela se estabeleça uma Oceana ou uma Utopia”. Contudo, setenta anos depois, em grande parte como resultado de sua obra, isso foi alcançado.

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