O marxismo definitivamente não é uma fonte segura

Na  parte final do estudo do capítulo III de Direito, Legislação e Liberdade, vimos Hayek destacar que o desenvolvimento moderno do Direito tem sido orientado por falsas concepções econômicas, dentre as quais merecem destaque, por já fazerem “parte do folclore de nossa época” as de que a livre iniciativa tem atuado em detrimento dos operários e de que “o capitalismo em seus primórdios”, ou “o liberalismo”, provocou um rebaixamento do padrão material da classe trabalhadora.

Possivelmente caiba ao marxismo o maior crédito pela difusão generalizada dessas falsas concepções econômicas que estão na base da aversão moderna à livre iniciativa. Pensando nisso, pareceu interessante trazer aqui as reflexões de Paul Johnson no ensaio “Karl Marx: ‘gritando maldições colossais’”, integrante do soberbo Os intelectuais, publicado em 1988.

Eis uma medida do imenso grau de equívoco e, até mesmo, de impostura sobre o qual parte dos cânones antiliberais do Direito moderno está edificada:

“Marx foi um filho de seu tempo, o meio do século XIX, e o marxismo foi uma filosofia típica do século XIX pelo fato de se pretender científico. “Científico” era o termo mais convincente de aprovação para Marx, que ele usava comumente para distinguir a si próprio de seus vários inimigos. Ele e sua obra eram “científicos”; seus inimigos, não. Percebeu que tinha encontrado uma explicação científica do comportamento do homem na história análoga à teoria da evolução de Darwin. (…).

Por conseguinte, o que devemos perguntar a respeito de Marx é: em que sentido ele era um cientista, se é que o era? Ou seja, até que ponto ele estava comprometido com a busca do conhecimento objetivo por meio da investigação e da avaliação de dados? (…).

Marx, portanto, levou uma vida de erudito. Certa vez, se queixou: “Sou uma máquina condenada a devorar livros”[1]. Mas num sentido mais profundo, ele não era realmente um scholar, nem tampouco um cientista. Não estava interessado em achar a verdade, mas em proclamá-la. Havia três elementos constitutivos em Marx: o poeta, o jornalista e o moralista. Cada um deles tinha a sua importância. Juntos, e combinados com sua enorme vontade, tornavam-no um escritor e um profeta formidável. Mas não havia nada de científico nele; na verdade, em todos esses aspectos ele era anticientífico.

O poeta em Marx era muito mais importante do que geralmente se supõe, muito embora suas metáforas poéticas logo tenham sido incorporadas a sua visão política. Começou a escrever poesia quando ainda era um garoto, em torno de dois temas principais: seu amor pela garota da porta ao lado – Jenny Von Westphalen, de descendência prussiano-escocesa, com quem se casou em 1841 – e a destruição do mundo. (…). Dois poemas tinham sido publicados na Athenaeum de Berlim, a 23 de janeiro de 1841. Intitulavam-se “Canções selvagens”, e a selvageria é uma marca característica de seus versos, juntamente com um intenso pessimismo no que diz respeito à condição humana, ódio, uma fascinação pela decomposição e pela violência, pactos de suicídio e pactos com o demônio. “Nós estamos acorrentados, alquebrados, vazios, amedrontados/Eternamente acorrentados a esse bloco marmóreo do ser”, escreveu o jovem Marx, “… Somos os imitadores de um Deus insensível”. Ele próprio, representando Deus, diz: “Gritarei maldições colossais à humanidade”, e sob a superfície de grande parte de seus poemas está a idéia de uma crise mundial generalizada que aumenta.[2] Gostava de citar o verso de Mefistófeles, do Fausto de Goethe: “Tudo o que existe merece perecer”; utilizou-o, por exemplo, em seu pequeno tratado contra Napoleão III, O 18 brumário, e ele manteve por toda a sua vida essa visão apocalíptica de uma catástrofe imensa e pronta para se abater sobre o sistema vigente: estava na poesia, foi o pano de fundo do Manifesto Comunista de 1848 e foi o clímax do próprio O capital.

Marx, em suma, é um escritor escatológico do começo ao fim. (…). O que importa é que a idéia de Marx de um “dia do juízo”, tanto em sua lúgubre versão poética quanto, por fim, em sua versão econômica, representa uma visão artística, e não científica. Essa idéia sempre esteve na cabeça de Marx e, como um economista político, ele trabalhou a partir dela mas voltado para trás, procurando a prova que a tornava convincente, mais do que voltado para frente, partindo de dados examinados objetivamente. E é claro que é o elemento poético que empresta à projeção histórica de Marx seu efeito dramático e de fascinação sobre os leitores radicais, que querem acreditar que a morte e o julgamento do capitalismo se aproximam. O talento poético se manifesta de forma intermitente nas páginas de Marx, criando algumas passagens memoráveis. No sentido de que ele intuía mais do que deduzia ou calculava, Marx até o fim continuou sendo um poeta.

(…).

Desse modo, Marx não estava disposto a investigar, ele próprio, a situação da indústria nem a aprender nada com trabalhadores inteligentes que a tinham vivido. Por que deveria? Em todos os pontos essenciais, usando a dialética hegeliana, chegara a suas conclusões, e isso podia ser tirado de reportagens de jornais, de livros azuis do governo ou de dados coletados por antigos autores; todo esse material era encontrado em bibliotecas. Por que ir mais longe? O problema, do modo como aparecia para Marx, era encontrar o tipo certo de informação: as informações adequadas. Seu método foi bem resumido pelo filósofo Karl Jaspers:

‘O estilo dos escritos de Marx não é o do investigador (…) ele não cita exemplos ou expõe fatos que se opõem a sua teoria mas apenas aqueles que provam ou confirmam aquilo que ele considera como a verdade última. Toda a sua abordagem é no sentido da justificação, não da investigação, mas trata-se de uma justificação de algo declarado como sendo a perfeita verdade com a convicção não do cientista, mas do crente’[3].

Nesse sentido, então, os “dados” não eram centrais ao trabalho de Marx; eles estavam subordinados, reforçando conclusões que já tinham sido alcançadas independentemente deles. O capital, o monumento em torno do qual girava sua vida de erudito, deveria ser visto, portanto, não como uma investigação científica sobre a natureza do sistema econômico que pretendeu descrever, mas como um exercício de filosofia moralista (…). Trata-se de um sermão gigantesco e no mais das vezes incoerente, um ataque ao sistema industrial e ao princípio de propriedade feito por um homem que tinha criado um ódio intenso, embora essencialmente irracional, em relação a ambos.

(…).

O capítulo 8, “O dia de trabalho”, se apresenta, por contraste, como uma análise fatual do impacto do capitalismo sobre as vidas do proletariado britânico; de fato, é a única parte da obra em que Marx trata realmente dos trabalhadores, que aparentemente são o motivo de toda a sua filosofia. Por isso, é interessante examiná-la tendo em vista seu valor “científico”[4]. Visto que, como já mencionamos, Marx na realidade só se interessava pelas informações que se adequavam as suas idéias preconcebidas, e visto que tal postura vai contra todas as regras do método científico, desde seu começo o capítulo tem uma imprecisão radical. Porém, será que Marx, além de uma seleção de informações tendenciosa, também as deturpou ou falsificou? Isso é o que temos de considerar agora.

O que se procura argumentar nesse capítulo – e esse é o cerne da questão moral de Marx – é que o capitalismo, por sua própria natureza, implica uma progressiva e crescente exploração dos trabalhadores; desse modo, quanto mais capital empregado, mais os trabalhadores serão explorados, e esse é o grande malefício moral que causa a crise derradeira. A fim de justificar cientificamente sua tese, deve provar que: (a) se as condições nas oficinas pré-capitalistas estavam ruins, tinham se tornado bem piores no capitalismo industrial; (2) uma vez admitida a natureza impessoal e implacável do capital, a exploração dos trabalhadores aumenta num crescendo na maioria das indústrias altamente capitalistas. Marx nem tentou provar o n.º (1). Escreveu: “No que diz respeito ao período que vai desde o começo da industrialização em larga escala na Inglaterra até o ano de 1845, tocarei nesse assunto aqui e ali, indicando ao leitor, para maiores detalhes, o livro de Friedrich Engels, Die Lage der arbeitenden Klasse in England (Leipzig, 1945)”. Marx acrescenta que publicações anteriores do governo, especialmente os relatórios dos inspetores de fábrica, confirmaram “a análise de Engels sobre a natureza do sistema capitalista” e mostraram “com que admirável fidelidade para o detalhe ele retratou a situação”.[5]

Em suma, toda a primeira parte da análise científica de Marx acerca das condições de trabalho no capitalismo em meados da década de 1860 se baseia numa única obra, o livro de Engels A situação da classe operária na Inglaterra, publicado 20 anos antes. E que valor científico, por sua vez, pode ser atribuído a essa única fonte? Engels nasceu em 1820, filho de um próspero industrial de algodão em Barmen, no Rhineland, e entrou para a empresa da família em 1837. Em 1842, foi mandado para o escritório da firma em Manchester, passando 20 meses na Inglaterra. Durante esse período, esteve em Londres, Oldham, Rochdale, Ashton, Leeds, Bradford e Huddersfield tanto quanto em Manchester. Desse modo, teve um contato direto com o comércio têxtil, porém, quanto ao mais, nada sabia em primeira mão sobre as condições de trabalho na Inglaterra. Por exemplo, não conhecia nada sobre mineração e nunca desceu numa mina; nada sabia a respeito dos distritos do campo ou do trabalho rural. Apesar disso, dedicou dois capítulos inteiros a “Os mineiros” e “O proletariado na terra”. Em 1958, dois estudiosos detalhistas, W. O. Henderson e W. H. Challoner, retraduziram e organizaram a publicação do livro de Engels e analisaram suas fontes e o texto original de todas as citações.[6] O efeito da análise deles foi acabar, quase por completo, com o valor histórico objetivo do livro e reduzi-lo ao que indubitavelmente era: um trabalho visando à polêmica política, um folheto de propaganda, uma diatribe. Engels escreveu a Marx, enquanto trabalhava no livro: “Perante o julgamento da opinião pública, acuso as classes médias inglesas de assassinato em massa, roubo em grande escala e todos os outros crimes da lista”.[7]

Essa frase quase que resume o livro: tratava-se de uma acusação. Uma grande parte do livro, inclusive toda a análise do período pré-capitalista e dos primeiros estágios da industrialização, não se baseava em fontes primárias, mas em umas poucas fontes secundárias de valor duvidoso, principalmente o livro de Peter Gaskell The Manufacturing Population of England [A população manufatureira da Inglaterra] (1833), um trabalho de mitologia romântica que tentava provar que o século XVIII tinha sido uma época próspera para os pequenos fazendeiros e artesãos. De fato, como foi demonstrado de forma contundente pela Comissão Superior de Emprego de Crianças de 1842, as condições de trabalho nas pequenas oficinas industriais e caseiras pré-capitalistas estavam bem piores que nas grandes e modernas fiações de Lancashire. As fontes primárias impressas utilizadas por Engels estavam cinco, dez, vinte, vinte e cinco ou até quarenta anos defasadas, embora geralmente as apresentasse como sendo atuais. Ao apresentar os números estatísticos relativos aos partos de crianças ilegítimas, os quais eram atribuídos aos turnos da noite, deixou de declarar que eles datavam de 1801. Citou um trabalho sobre as condições sanitárias em Edinburgh sem deixar que seus leitores soubessem que tinha sido escrito em 1818. Em várias ocasiões, omitiu dados e acontecimentos que invalidavam completamente suas informações obsoletas.

Nem sempre fica claro se as deturpações de Engels servem para enganar o leitor ou para se auto-iludir. Porém, às vezes o engano é claramente intencional. Utilizou-se de informações relativas a más condições de trabalho reveladas pela Comissão de Inquérito das Fábricas de 1833 sem contar aos leitores que a Lei Fabril criada pelo Lord Althorp em 1833 tinha sido aprovada, e desde então tinha sido posta em prática, exatamente para acabar com as condições descritas no relatório. Usou o mesmo estratagema ao recorrer a uma de suas principais fontes, o livro do dr. J. P. Kay, Physical and Moral Conditions of the Working Classes Employed in the Cotton Manufacture in Manchester [As condições físicas e morais das classes trabalahadoras empregadas na indústria de algodão em Manchester] (1832), que tinha concorrido para que se fizessem reformas fundamentais nas medidas sanitárias do governo local; Engels não as mencionou. Interpretava erroneamente as estatísticas criminais – ou as ignorava – quando não confirmavam a sua tese. Na verdade, suprimia informações, com freqüência e conscientemente, quando eram contrárias a sua argumentação ou invalidavam uma determinada “iniqüidade” que ele procurava revelar. A verificação cuidadosa das citações que Engels extraiu de suas fontes secundárias fazem ver que elas eram amiúde mutiladas, condensadas, adulteradas e deturpadas, porém, invariavelmente apresentadas entre aspas como se fossem textuais. Por toda a edição do livro organizada por Henderson e Challoner, as notas de pé de página representam uma lista das distorções e inexatidões de Engels. Apenas em uma seção, o sétimo capítulo, “O proletariado”, os erros, de informações e de transcrições, acontecem nas páginas 152, 155, 157, 159, 160, 163, 165, 167, 168, 170, 172, 174, 178, 179, 182, 185, 186, 188, 189, 190, 191, 194 e 203.[8]

Marx não podia ignorar essas fraquezas, na verdade desonestidades, do livro de Engels, visto que muitas delas foram expostas em detalhe já em 1848 pelo economista alemão Bruno Hildebrand, numa publicação com a qual Marx estava familiarizado.[9] Além disso, o próprio Marx acobertou conscientemente as distorções de Engels, deixando de revelar ao leitor as grandes melhorias acarretadas, desde que o livro tinha sido publicado, pela execução das Leis Fabris e de outras leis remediadoras, as quais afetaram exatamente as condições para as quais ele tinha chamado a atenção. De qualquer maneira, Marx empregou, na utilização das fontes primárias e secundárias, o mesmo espírito de descaso flagrante, de distorção tendenciosa e de inequívoca desonestidade que marcou a obra de Engels.[10] Na verdade, eles geralmente colaboravam no logro, embora fosse Marx o falsificador mais audacioso. Num caso particularmente escandaloso, ele se superou. Trata-se do chamado “Discurso inaugural” para a Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em setembro de 1864. Com o objetivo de tirar a classe operária inglesa de sua apatia e, por conseguinte, ansioso para provar que as normas existentes estavam perdendo o valor, falsificou intencionalmente uma frase do discurso de 1863 de W. E. Gladstone relacionado com os gastos orçamentários. O que Gladstone disse, ao comentar o aumento da riqueza nacional foi: “Eu deveria encarar quase com apreensão e com pesar esse aumento inebriante da riqueza e do poder se achasse que tal aumento se limitou à classe que está em condições mais favoráveis”. Porém, acrescentou ele, “a situação geral dos trabalhadores britânicos, como temos a felicidade de saber, melhorou ao longo dos últimos 20 anos num grau que, como sabemos, é extraordinário, e que quase devemos declarar como sendo sem paralelo na história de qualquer país em qualquer época”.[11] Marx, em seu discurso, atribuiu a Gladstone as seguintes palavras: “Esse aumento inebriante de riqueza e poder se limita inteiramente às classes proprietárias”. Sendo verdade o que Gladstone realmente falou, já que foi confirmado por uma grande quantidade de dados estatísticos, e sendo ele famoso, de qualquer modo, por sua preocupação relacionada com a necessidade de assegurar que a riqueza fosse distribuída tão amplamente quanto possível, seria difícil imaginar uma inversão mais afrontosa do sentido original de sua frase. Marx citou como fonte o jornal Morning Star; porém, o Star, assim como outros jornais e o Hansard, publicou corretamente as palavras de Gladstone. A citação incorreta de Marx foi apontada. Entretanto, ele a reproduziu em O capital, juntamente com outras discrepâncias, e quando a falsificação foi novamente percebida e denunciada, ele fez uma grande confusão a fim de tumultuar o debate; ele, Engels e, mais tarde, sua filha Eleanor se envolveram na discussão, tentando defender o indefensável, por 20 anos. Nenhum deles jamais admitiria a falsificação primária e patente, e o resultado do debate é que alguns dos leitores ficaram com a impressão, como era o propósito de Marx, de que a controvérsia possuía dois lados. Pois não possuía. Marx sabia que Gladstone nunca disse uma coisa daquelas, e o engano foi intencional.[12] Não foi a única vez. Marx falsificou, do mesmo modo, citações de Adam Smith.[13]

A sistemática utilização errônea de fontes por parte de Marx chamou a atenção, na década de 1880, de dois estudiosos de Cambridge. A partir da edição francesa revista de O capital (1872 a 1875), escreveram um ensaio para o Clube de Economia de Cambridge “Comentários sobre o uso dos livros azuis por Karl Marx no capítulo XV de Le capital” (1885).[14]   Eles contam que em princípio verificavam as referências de Marx “para obter informações completas sobre certos tópicos”, porém, impressionados, com as “discrepâncias que se acumulavam”, decidiram analisar “o alcance e a importância dos erros que se apresentavam de forma tão manifesta”. Descobriram que as diferenças entre os textos dos livros azuis e as citações que Marx tirava deles não era resultado apenas de enganos mas “mostravam sinais de uma influência deturpadora”. Num dos grupos de erros, descobriram que as citações tinham sido, amiúde, “abreviadas por conveniência por meio da omissão de passagens que provavelmente iriam contra as conclusões que Marx tentava provar”. Um outro grupo “consiste em reunir citações fictícias a partir de informações isoladas que constam de diferentes partes de um relatório. Essas afirmações eram então apresentadas entre aspas ao leitor como se fossem citadas diretamente dos próprios livros azuis”. Num tópico, a máquina de costura, “se utiliza dos livros azuis com uma imprudência espantosa (…) a fim de provar exatamente o contrário do que eles realmente mostram”. Concluem que seus dados podem não ser “suficientes para sustentar uma acusação de falsificação intencional”, mas com certeza demonstram “um descaso quase criminoso no uso de fontes autorizadas” que nos levam a encarar todas as “outras partes da obra de Marx com desconfiança”.[15]

A verdade é que, mesmo o exame mais superficial da utilização que Marx fez das informações nos obriga a encarar com ceticismo tudo o que eles escreveu baseando-se em dados fatuais. Nunca se pode confiar nele. Todo o importante capítulo 8 de O capital é uma falsificação deliberada e sistemática visando provar uma tese que uma análise objetiva das informações demonstra ser insustentável. Seus crimes contra a verdade são de quatro tipos. Em primeiro lugar, se utilizou de informações obsoletas porque as ainda válidas não confirmavam suas alegações. Em segundo lugar, escolheu determinadas indústrias onde as condições de trabalho eram particularmente ruins, com sendo típicas do capitalismo. Esse estratagema, em especial, foi importante para Marx, pois sem ele não haveria como escrever o capítulo 8. Sua tese era de que o capitalismo dá lugar a condições de vida cada vez piores; quanto mais capital é empregado, pior os trabalhadores devem ser tratados para que se assegurem rendimentos convenientes. Os dados que ele citou detalhadamente para justificar esse raciocínio derivavam, quase em sua totalidade, de empresas pequenas, ineficientes e pouco capitalizadas ligadas a indústrias arcaicas que na maioria dos casos eram pré-capitalistas – por exemplo: cerâmica, costura, ferraria, padaria, fábricas de caixas de fósforo, de papel de parede e de cordão de sapato. Em muitos dos casos específicos que ele cita (e.g, padaria), as condições de trabalho eram ruins exatamente porque a firma não tinha tido condições de implantar máquinas, uma vez que faltava capital. Desse modo, Marx lida com as condições pré-capitalistas, e ignora a verdade que salta aos olhos: quanto mais capital, menos sofrimento. Quando ele analisa uma indústria moderna e altamente capitalizada, não encontra provas. Desse modo, quando trata do aço, tem de recorrer a comentários interpolados (“Que franqueza sarcástica!”, “Que fraseologia hipócrita!”), e no das ferrovias, é obrigado a se utilizar de recortes de jornais amarelecidos sobre velhos acidentes (“catástrofes ferroviárias recentes”): era necessário, para sua tese, que o número de acidentes por passageiros a cada 1,5 km percorrido aumentasse, quando na verdade ele estava diminuindo drasticamente e, na época em que O capital foi publicado, os trens já estavam se tornando o mais seguro meio de transporte em massa em toda a história.

E, terceiro lugar, ao se utilizar de relatórios da inspetoria de fábricas, Marx mencionou exemplos de más condições e maus-tratos sofridos por trabalhadores como se estas fossem regras inerentes ao sistema; na verdade, os responsáveis por essas condições eram o que os próprios inspetores chamavam de “os donos de fábrica fraudulentos”, os quais cabia a eles desmascarar e processar e que, desse modo, estavam em via de ser afastados. Em quarto lugar, o fato de as principais informações de Marx provirem dessa fonte, a inspetoria, revela o maior de seus logros. Trata-se da tese de que o capitalismo era, por natureza, incorrigível e, pior, de que nos sofrimentos inflingidos pelo sistema aos trabalhadores, o Estado burguês era seu aliado, já que o estado, escreveu ele, “é uma comissão executiva para administrar os negócios da classe dominante como um todo”. Porém, se isso fosse verdade, o Parlamento nunca teria aprovado as Leis Fabris, nem o Estado as teria posto em prática. Praticamente todas as informações de que Marx dispunha, dispostas (e às vezes falsificadas) de forma seletiva como estavam, derivavam do esforço do Estado (inspetores, cortes, juízes de paz) no sentido de melhorar as condições de vida, o que implicava necessariamente desmascarar a punir os responsáveis pelas más condições. Se o sistema não estivesse num processo de autor-reformulação – o que pelo raciocínio de Marx era impossível – O capital não poderia ter sido escrito. Como ele não estava disposto a fazer nenhuma pesquisa de campo por conta própria, foi obrigado a se basear exatamente nas informações daquela que ele denominou como “a classe dominante”, que estava tentando por as coisas no lugar e, cada vez em maior grau, o conseguia. Desse modo, Marx teve de deturpar sua principal fonte de informação para não abandonar sua tese. O livro era, e é, desonesto em sua estrutura.

O que Marx não podia ou não iria compreender – por não ter feito nenhum esforço para entender o funcionamento de uma indústria – era que desde os primórdios da Revolução Industrial, de 1760 a 1790, os industriais mais eficientes, que tinham amplo acesso ao capital, geralmente propiciavam melhores condições para seus empregados; por isso, eles costumavam defender a legislação relativa às fábricas e, o que era igualmente importante, sua execução efetiva, pois ela acabava com o que eles consideravam uma competição injusta. Desse modo, as condições melhoravam e, por conta disso, os trabalhadores paravam de se revoltar, contrariando o que Marx tinha previsto. Assim, o profeta se viu confuso. O que se percebe depois de uma leitura de O capital é a incapacidade inata em Marx de entender o capitalismo. Ele fracassou exatamente por não ser científico: não pesquisou, ele próprio, as informações nem se utilizou com objetividade das que foram pesquisadas por outras pessoas. Do começo até o fim, não apenas O capital mas toda sua obra reflete uma desconsideração pela verdade que às vezes beira o desprezo. Essa é a razão primária pela qual o marxismo, enquanto um sistema, não pode chegar aos resultados que lhe imputam, sendo que chamá-lo de “científico” chega a ser um absurdo.

(…)”.


[1] Carta a Engels, 11 de abril de 1868, Karl Marx-Friedrich Engels Werke (Berlim Oriental, 1956-68), vol. Xxxii, p. 58.

[2] Sobre a poesia de Marx, ver Payne, pp. 61-71.

[3] Karl Jaspers, “Marx und Freud”, Der Monat, xxvi (1950).

[4] O capital, pp. 230-311.

[5] O capital, p. 240, nota 3.

[6] W. O. Henderson & W. H. Challoner (trad. E org.), Engels’ Condition Of the working class in England [A situação da classe operária na Inglaterra, de Engels] (Oxford, 1958).

[7] Engels para Marx, 19 de novembro de 1844, Marx-Engels Gesamt-Ausgabe (Moscou, 1927-35) 1ª parte iii (1929).

[8] Henderson & Challoner, apêndice v, no livro do dr. Loudon, Report on the operation of the poor laws [Relatório sobre a operação das leis dos pobres], 1833, tem-se exemplos característicos dos métodos que Engels usava de citações incorretas, os quais têm o efeito de deturpar gravemente o sentido dado por Loudon.  

[9] Nationalokonomie der Gegenwart und Zukunft, i (Frankfurt, 1848), pp. 155-61, 170-241.

[10] Para uma análise geral dos métodos de Marx, ver Leslie R. Page, Karl Marx and the critical examination oh his works [Karl Marx e o exame crítico de suas obras] (Londres, 1987).

[11] Como foi noticiado em sete jornais de Londres a 17 de abril de 1863.

[12] Ver David F. Felix, Marx as politician [Marx como político] (Londres, 1983), PP. 161-162, 269-270.

[13] Ibid., p. 147.

[14] Quanto a isso, ver Page, pp. 46-49.

[15] Ver também Felix, e Chushichi Tsuzuki: The life of Eleanor Marx, 1855-98: a Socialist Tragedy [A vida de Eleanor Marx, uma tragédia socialista] (Londres, 1967).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s