Elegia para a Dama do Liberalismo

A causa da liberdade perde hoje um de seus maiores campeões. Poucos seres humanos têm a oportunidade de combinar grande conhecimento e grande poder, e os que fazem disso algo positivo são mais raros ainda. Com uma determinação de ferro, Margaret Thatcher lutou contra consensos e preconceitos, inclusive os provindos de aliados Conservadores, e, graças a ela, a Grã-Bretanha foi salva do fabianismo pós-II Guerra. De país atrasado e empobrecido pelo socialismo trabalhista dos anos 60-70, sob o comando da então primeira-ministra durante toda a década de 80, os britânicos entraram nos 90 como um dos bastiões do ocidente.

Para os opositores, ela era autoritária e populista. Mas como negar a autoridade de quem toma as decisões corretas? E o que intelectuais de esquerda têm a dizer sobre a massiva aprovação da opinião pública, decorrente dos visíveis resultados das medidas liberais do governo de Lady Thatcher?

A primeira grande virtude da baronesa era ser coerente, o que, em política, pode soar paradoxal ou até fantasioso. Porém, o fato é que suas decisões nunca se deram em detrimento de suas crenças, e estas ela nunca teve medo de declará-las abertamente. Nos anos 60, já deputada, em seus discursos ela criticava os próprios conservadores pela tibieza de suas ações ao ocupar o governo:

“Há perigos no consenso; pode ser uma tentativa de satisfazer pessoas que não tem nenhuma visão particular sobre nada. Às vezes, parece mais importante adotar uma filosofia com apelo para o número suficiente de pessoas apenas para garantir a maioria (…) Nenhum grande partido pode sobreviver exceto com base na firme crença sobre o que quer fazer.”

Em 1981, dois anos após o início de seu governo, a Inglaterra viu-se envolta em distúrbios populares e recessão decorrentes dos necessários ajustes monetários para conter a inflação. Vários setores cobravam uma “U-turn” (no sentido de guinada, retorno, uma alusão ao formato da letra U) nas medidas econômicas, advogando que o governo deveria voltar a injetar recursos na economia, ainda que para isso precisasse se endividar ou emitir mais moeda. Em uma tirada que celebrizou seu estilo retórico, Thatcher respondeu You turn (em inglês o som fica idêntico ao da política refutada: U-Turn) if you want to. The lady’s not for turning!”.

É fato que, de certa forma, sua coerência custou-lhe o mandato, quando a percebida rigidez de sua política fiscal e os naturais desgates após mais de uma década no poder fizeram com que perdesse o apoio de su partido. Mas, quando isso ocorreu em 1990, o tempo – e os números das estatísticas sócio-econômicas – havia provado que ela estava certa ao não ceder ao U-Turn dos intervencionistas.

A outra grande virtude de Tatcher era o seu profundo conhecimento teórico e prático sobre o governo. Sua coerência e seu idealismo não eram apanágios de medidas românticas, ou de utopia retórica esvaziada de conteúdo – antes pragmáticas, suas posições eram  fortalecidas por uma sólida abordagem realista acerca de economia e política[1]: (DISCURSO COMPLETO)

Um dos grandes debates do nosso tempo é sobre quanto do seu dinheiro deve ser gasto pelo governo, e quanto deve ficar com você para gastar com sua família. Nunca nos esqueçamos desta verdade fundamental: o Estado não tem nenhuma fonte de dinheiro além do dinheiro que as pessoas ganham elas mesmas. Se o Estado quiser gastar mais, pode fazê-lo apenas pedindo emprestado da poupança das pessoas, ou tributando-as mais. Não é bom pensar que um “outro alguém” vai pagar a conta, esse “alguém” é você. Não há tal coisa como dinheiro público, o que existe é apenas dinheiro dos contribuintes.

A prosperidade não virá com a invenção de programas de despesa pública mais e mais generosos. Você não fica mais rico pedindo mais talões de cheque ao banco. Nenhuma nação jamais ficou mais próspera ao tributar os seus cidadãos além de sua capacidade de pagar. Nós temos o dever de nos certificar de que todos os centavos que levantamos em impostos sejam bem gastos e com sabedoria. (…)

Proteger a bolsa do contribuinte, proteger os serviços públicos – estas são as nossas duas grandes tarefas, e suas exigências têm de ser conciliadas. Como muito agradável seria, como muito popular seria, apenas dizer “gaste mais com isso, expanda mais naquilo”. Todos temos as nossas causas favoritas – eu sei que as tenho. Mas alguém tem que fazer a conta fechar. Cada empresa tem de fazê-lo, cada dona de casa tem de fazê-lo, cada governo deve fazê-lo… e este vai.

Mas, ao longo da história, homens inteligentes, alguns deles economistas, nem todos malandros, alguns deles homens cruéis, tentaram mostrar que os princípios de finanças prudentes não se aplicam realmente ao governo, ao orçamento, à determinada instituição. Não é assim. Eles sempre fazem, e cada pessoa sensata sabe, ninguém melhor do que você, senhor presidente, que teve de lidar com países que desprezaram esses princípios e agora estão atolados até o pescoço em dívidas. A quem eles se socorrem? Àqueles, como nós, que seguem os princípios da prudência.

Quando não há muito dinheiro para gastar, é preciso fazer escolhas, e o mesmo é verdadeiro para os governos. Às vezes é sugerido que os governos podem optar por não fazer essas escolhas. Eles não podem. (…) As pessoas falam em serviço “gratuito”. Não é gratuito. É preciso que alguém pague por ele.


A uma posição desta natureza não faltava oposição. É preciso lembrar que eram os tempos da Guerra Fria e da exuberância tecnológico-militar do bloco soviético, de forma que existiam ainda pessoas inteligentes e honestas que acreditavam no planejamento econômico e no dirigismo estatal como causas da prosperidade. Na propaganda política da esquerda, austeridade e responsabilidade fiscal são denunciadas como causadoras de “concentração de renda”, e, como os intervencionistas acreditam que possuem a receita para o crescimento ecoômico, os políticos prudentes são acusados de omissos por deixar de adotar medidas que, em enganosa concepção, aliviariam a pobreza. A nobre dama não se intimidava, e era inclemente ao apontar os verdadeiros inimigos não só da liberdade, mas também da prosperidade[2]: (DISCURSO COMPLETO)

Na última década, nós temos devolvido o poder de volta para as pessoas em uma escala sem precedentes. Nós temos dado o controle para as pessoas sobre suas próprias vidas e sobre seu modo de vida, sobre as decisões mais importantes para eles e suas famílias. Temos feito isso ao reduzir o poder de monopólio dos sindicatos de controlar, mesmo de vitimizar, o trabalhador individual. O Partido Trabalhista faria com que retornássemos ao confronto, conflito, e governo com o consentimento do TUC (Trade Union Congress, maior central sindical britânica – por uma nefasta coincidência, se lida de trás para frente aparece uma sigla equivalente). Nós temos feito isso ao possibilitar que as famílias possuam suas próprias casas, com a não menos importante venda de 1,25 milhões de council houses (casas populares, antes alugadas). O Trabalhista se opõe a nossa iniciativa de transformar aluguéis em hipotecas, o que vai expandir ainda mais os benefícios da propriedade. Nós fizemos isso ao dar às pessoas escolhas nos serviços públicos – qual escola é adequada para os seus filhos; que curso de formação profissional é melhor para o egresso da escola; qual médico optar por cuidar de sua saúde; e que hospital elas querem para o seu tratamento.

O Trabalhista é contra a propagação dessas liberdades de escolha a todo o nosso povo. É contra darmos o poder de volta para as pessoas por meio da privatização de indústrias nacionalizadas. Onze milhões de pessoas agora possuem ações de companhias, e 7,5 milhões de pessoas registraram seu interesse em comprar quotas de eletricidade. O Trabalhista quer renacionalizar a eletricidade, a água e a British Telecom. Ele quer tomar o poder de volta para o estado e de volta para as suas garras, garras indecisas e debilitantes.

Nós estamos fornecendo investimento para o futuro, nós não acreditamos em viver à custa do futuro.

Encerro esta elegia com aquele que considero o melhor pronunciamento da então primeira-ministra. Em seu último discurso nesta posição, já politicamente abalada, sofrendo ataques após ataques, ainda assim ela manteve um carismático magnetismo sobre a Câmara, e desmascarou, com fleuma e verve, uma das consequências óbvias das “boas intenções” socialistas: todos devem ser iguais, ainda que igualmente pobres[3].  (DISCURSO COMPLETO)

Sr. Hughes – Não há dúvidas de que a primeira-ministra, em muitos aspectos, alcançou sucesso considerável. Há uma estatística, no entanto, que eu entendo não seja contestada, que é a de que, durante seus 11 anos como primeira-ministra, o fosso entre os 10% mais ricos 10% mais pobres deste país aumentou substancialmente. No final do seu capítulo da política britânica, como ela pode justificar o fato de que muitas pessoas em um eleitorado como o meu são relativamente muito mais pobres, muito menos bem alojados e muito menos bem providos do que eram em 1979? Certamente ela aceita que isso não é um registro de que ela ou qualquer primeiro-ministro pode ser orgulhar.

A Primeira-Ministra Thatcher – As pessoas em todos os níveis de renda estão melhores do que estavam em 1979. O cavalheiro está dizendo que prefere que os pobres fossem mais pobres, desde que os ricos fossem menos ricos. Dessa forma, nunca se vai criar a riqueza para a melhoria dos serviços sociais que nós temos hoje. Que política! Sim, ele preferiria ter o pobres mais pobres, desde que os ricos fossem menos ricos. Essa é a política da esquerda.

A extraordinária transformação do setor privado criou a riqueza para custear melhores serviços sociais e melhores pensões, o que permite que pensionistas tenham o dobro do que tiveram há 10 anos para deixar a seus filhos. Nós não somos mais o homem doente da Europa nossa produção e os investimentos cresceram mais rapidamente durante os anos 1980 do que os de qualquer um dos nossos principais concorrentes.

 

P.S.: A Margaret Thatcher do parlamento é muito eloqüente, mas a das entrevistas a supera, em termos de lucidez e profundidade das reflexões. Uma das melhores foi a concedida para o programa “Firing Line” da PBS (video a seguir). Muitas outras, e trechos de vários pronunciamentos e discursos podem ser encontrados no Youtube e na Margaret Thatcher Foundation (www.margaretthatcher.org), criada para perpetuar seu legado.

 

 


[1] One of the great debates of our time is about how much of your money should be spent by the State and how much you should keep to spend on your family. Let us never forget this fundamental truth: the State has no source of money other than money which people earn themselves. If the State wishes to spend more it can do so only by borrowing your savings or by taxing you more. It is no good thinking that someone else will pay—that “someone else” is you. There is no such thing as public money; there is only taxpayers’ money.[fo 3]

Prosperity will not come by inventing more and more lavish public expenditure programmes. You do not grow richer by ordering another cheque-book from the Bank. No nation ever grew more prosperous by taxing its citizens beyond their capacity to pay. We have a duty to make sure that every penny piece we raise in taxation is spent wisely and well. For it is our party which is dedicated to good housekeeping—indeed, I would not mind betting that if Mr. Gladstone were alive today he would apply to join the Conservative Party.

Protecting the taxpayer’s purse, protecting the public services—these are our two great tasks, and their demands have to be reconciled. How very pleasant it would be, how very popular it would be, to say “spend more on this, expand more on that.” We all have our favourite causes—I know I do. But someone has to add up the figures. Every business has to do it, every housewife has to do it, every Government should do it, and this one will.

But throughout history clever men, some of them economists, not all of them rascals, a few of them vicious men, have tried to show that the principles of prudent finance do not really apply to this Government, this budget, that institution. Not so. They always do, and every sensible person knows it, no one better than you, Mr. President, who had to deal with countries which flouted those principles and are now up to their eyes in debt. Who do they turn to? Those who follow prudent principles like us.

When there is only so much money to spend, you have to make choices, and the same is true of Governments. It is sometimes suggested that Governments can opt out of these choices. They cannot. Let me for a moment take the subject which we have so much debated, the Health Service.

People talk about a “free” service. It is not free. You have to pay for it. Five years ago, just before I came into No. 10, a family of four was having to pay on average through various taxes some £560 a year for the Health Service; this year that same family will have to pay £1,140 a year, more than double. Let me put it another way. This year, the Health Service is costing over £15,000 million—half the total yield of income tax.

[2] In the past decade, we have given power back to the people on an unprecedented scale. We have given back control to people over their own lives and over their livelihood—over the decisions that matter most to them and their families. We have done it by curbing the monopoly power of trade unions to control, even to victimise, the individual worker. Labour would return us to conflict, confrontation and government by the consent of the TUC. We have done it by enabling families to own their homes, not least through the sale of 1.25 million council houses. Labour opposes our new rents-to-mortgage initiative, which will spread the benefits of ownership wider still. We have done it by giving people choice in public services—which school is right for their children, which training course is best for the school leaver, which doctor they choose to look after their health and which hospital they want for their treatment.

Labour is against spreading those freedoms and choice to all our people. It is against us giving power back to the people by privatising nationalised industries. Eleven million people now own shares, and 7.5 million people have registered an interest in buying electricity shares. Labour wants to renationalise electricity, water and British Telecom. It wants to take power back to the state and back into its own grasp—a fitful and debilitating grasp.

We are providing investment for the future; we do not believe in living at the expense of the future.

[3] Mr. Hughes –  There is no doubt that the Prime Minister, in many ways, has achieved substantial success. There is one statistic, however, that I understand is not challenged, and that is that, during her 11 years as Prime Minister, the gap between the richest 10 per cent. and the poorest 10 per cent. in this country has widened substantially. At the end of her chapter of British politics, how can she say that she can justify the fact that many people in a constituency such as mine are relatively much poorer, much less well housed and much less well provided for than they were in 1979? Surely she accepts that that is not a record that she or any Prime Minister can be proud of.

The Prime Minister – People on all levels of income are better off than they were in 1979. The hon. Gentleman is saying that he would rather that the poor were poorer, provided that the rich were less rich. That way one will never create the wealth for better social services, as we have. What a policy! Yes, he would rather have the poor poorer, provided that the rich were less rich. That is the Liberal policy.

The extraordinary transformation of the private sector has created the wealth for better social services and better pensions—it enables pensioners to have twice as much as they did 10 years ago to leave to their children. We are no longer the sick man of Europe—our output and investment grew faster during the 1980s than that of any of our major competitors.

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