"O Estado e o homem incompleto"

O Estado e o homem incompleto

Por Arthur Dutra, publicado originalmente no blog Escritos Improvisados

A figura do Estado causa-me certo espanto, notadamente quando a analisamos em cotejo com a individualidade humana. É que o Estado, à guisa de substituir o homem individualmente considerado como promotor do bem, termina por estabelecer uma abstração generalista do que é o bem, como se fosse possível aplicá-la indistintamente a todos os homens que estão sob sua jurisdição. Isto, além de uma temeridade, e diria até impossibilidade, atenta contra a justiça da vida, assim como contra a própria humanidade, que não é aquele coletivo abstrato que refere o conjunto dos homens, e sim a essência incrivelmente humana que existe em todos nós.

 Ao assumir a função de tutor do homem por delegação pelo voto ou outro meio qualquer, o Estado como que assume a função de protegê-lo contra todos os perigos da vida, mediante a concessão de poderes que se exercem por meio da violência e da coerção. Ocorre que essa tutela, exercida com exagero por parte do Estado, retira de alguns homens a oportunidade de conduzir suas vidas de forma a tirar delas as experiências que o farão crescer, visto que o homem, tutelado pelo poder estatal, atribuirá à ineficiência do aparato estatal todos os infortúnios e insucessos que se abaterão sobre ele, esquecendo de considerar a sua própria parcela de culpa no evento. Se fosse sincero e observasse onde e como ele próprio errou, o homem poderia guardar aquele erro como patrimônio da sua experiência a fim de não mais cometê-lo e, assim, evoluir como ser humano pela afirmação individual decorrente do uso do seu intelecto. É neste sentido que a velha frase “a culpa é do governo!” avulta não apenas como um mantra, mas também como um pensamento que vicia o homem acomodado e facilmente adormecido pela hipnose do poder estatal.

Isto é grave e cria um cacoete mental no cidadão menos provido de olhos para a realidade, e para si mesmo, que é aquele mesmo homem que se satisfaz com os pequenos benefícios que lhe são ofertados pelo Estado. Além disso, ele vê nisso uma bela oportunidade de ter um culpado impessoal sobre quem poderá jogar a culpa dos seus fracassos, qualquer deles, permanecendo na confortável – e equivocada – certeza de que é um ser humano praticamente perfeito. Mal sabe ele que é esse mesmo Estado que tira seus direitos e diminui até mesmo as possibilidades de olhar para sua própria vida constantemente carente de edificação, já essa salutar sinceridade construtiva.

Assim, pode parecer estranho, mas no final ele termina por ter razão, pois o Estado e seu poder de tutela afiguram-se como culpado pelo insucesso de muitas vidas, embora por motivos diferentes dos que são alegados comumente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s