Breves Notas sobre um Nulo Junho nas Ruas

I. LEIAM OU SEJAM MASSA. Leiam a Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset. É curto. É de graça. A massa também pode se beneficiar de nosso trabalho, entretanto: é só clicar AQUI e ser direcionado ao fichamento, no qual obviamente pinçamos apenas as partes que farão vocês concordarem conosco.

“Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não atua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influída, representada, organizada – até para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes.”

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II. VEM VOCÊ PRAS RUAS! NAAAN… No corredor de uma repartição pública, um funcionário coroa debate contra meu ceticismo:

– Mas como você não acredita no poder da voz das ruas? Minha geração foi pras ruas e conseguimos as Diretas Já!

– Voz das ruas? Voz é um atributo de indivíduos. Diretas Já?! Isso não foi aquele movimento que trocou uma experiência de 20 anos de parlamento organizado, combativo e político, pelo atual modelo de presidencialismo de coalizão, no qual o governo só consegue governar efetivamente mediante escambo de verbas e cargos com um congresso composto por nulidades…?  Então a culpa de 30 anos do PMDB no poder é sua?

– Mas o que importa é que conseguimos alguma coisa! É que fizemos história!

– Naan! Da mesma forma que fizeram os republicanos, os varguistas e tenentistas bem-intencionados… Mil desculpas, mas passo longe…

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III. A VOZ DAS RUAS. Outro colega, um literato, teve em certa ocasião a cortesia de admoestar-me que “voz das ruas” é uma metáfora. Sei não, sei não. O apelo para as emoções no discurso subjuntivo é algo poderosíssimo, e com potenciais efeitos de deturpação histérica da realidade. Não é a toa que a política é o calvário da retórica. Quem fuma Marlboro se sente como um caubói, quem anda de carrão importado tem em seu íntimo a expectativa de faturar uma mulher equivalente à da propaganda. Quem fala em “voz das ruas”, ou acha que a massa tem 1 discurso que valha a pena ser ouvido, ou acha que há algum eleito que por revelação é capaz de traduzi-lo.

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IV. O HINO DAS RUAS. Em um debate com o mesmo colega literato, acabei por sugerir um hino para as manifestações. Todos falavam em Chico, cuja crônica idiotia lírica combina bastante com esses tempos desmiolados. Eu, parafraseei Vinicius, que é melhor poeta:

Era uma CAUSA muito engraçada, Não tinha teto, não tinha nada.

Ninguém podia entrar nela, não Porque na casa não tinha chão.

[…] Mas era feita com muito esmero, Na rua dos bobos, número zero.

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V. A MASSA É AMORFA E UNIFORME. A massa é amorfa e uniforme, nunca nos esqueçamos. Apesar de a mídia se esforçar para diferenciar “vândalos infiltrados” de “legítimos manifestantes”, e de uma parte da massa gritar em coro “sem violência” enquanto assiste inerte à outra parte da massa praticar crimes de dano e de lesão corporal (e até de tentativa de homicídio, que para mim é o que almeja quem joga um coquetel molotov em um prédio habitado), nunca nos esqueçamos de que a massa é amorfa e uniforme. E repetitiva.

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VI. COERÇÃO É VIOLÊNCIA. “Quando a massa atua por si mesma, fá-lo só de uma maneira, porque não tem outra: lincha”, como disse Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas. “Ah, mas eu fui pras ruas e não agredi ninguém.” Ai, não? E com que direito você, como indivíduo, participa voluntariamente de um aglomerado cuja consequência, você sabe, será no mínimo a de suspender a possibilidade de outras pessoas transitarem por uma rua ou avenida, bem de propriedade pública que foi feito para isso? Violência, vis, é força. Seu protesto é coerção, logo ele é violento. Se você alegar o seu “direito à livre expressão”, eu te respondo que o meu direito de entrar no carro de minha propriedade, trafegar em uma rua pública em condições normais, e ir comprar um picolé, prevalece sobre o seu direito de se expressar em espaços que não são seus. Vá se manifestar no seu computador, na sua casa, numa praça, ou na calçada. “Saia do meu gramado, punk!”, diria eu se dirigisse um Gran Torino.

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VII. IGNORÂNCIA. E ainda que você não cause danos, saiba que sua ação individual de “compor” a massa implica na aceitação moral de todas as respectivas consequências previsíveis. Em outras palavras, você pode até não ter agarrado nenhuma pedra, mas estava na rodinha pra ver Madalena levar uma no quengo. Se você não tiver pensado nisso, nas consequências de suas ações, é um ignorante. Se pensou, ou se leu isto aqui, e ainda assim discorda, saiba que você se perfilha, ainda que involuntariamente (talvez nem seja culpa sua, é provável que uma universidade pública ou um professor de segundo grau tenha lhe convencido disso) a uma degenerada tradição niilista moral, que acredita que todos os princípios éticos são relativos, e que certos direitos individuais – mesmo os mais fundamentais – podem ser violados (“sacrificados” talvez você pense, heroicamente) em virtude de um utópico “bem comum”. Se você é o cara que define o que é este bem comum, parabéns grande irmão! Senão, você é só mais um fodido de massa. Malvadinho, mas fodido.

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VIII. TRÊS TIPOS, MUITAS IDADES, UM SINTOMA. Eu só vi três tipos de gente participar das manifestações. O ignorante da massa. O seleto mal-intencionado. E o indivíduo curioso (aquele, que tinha acabado de chegar na rodinha, e decidiu ficar mais um pouquinho até Madalena levar a primeira no quengo). Não é de se espantar que houvesse tantos jovens nas manifestações. Mas me surpreendeu a quantidade de adultos, um triste sintoma da inexistência de qualquer vestígio de alta cultura nas classes tidas como letradas.

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IX. A CARREIRA NOS SELETOS MAL-ITENCIONADOS. Confesso que me regozijei em ver os seletos mal-intencionados serem escorraçados com suas bandeiras vermelhas. Queriam dirigir as massas, mas estas se rebelaram. Porém… O que é pior, niilismo, ou comunismo?

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X. O PRÍNCIPE DOS JUMENTOS. O membro da massa menos ignorante foi um dito cujo que chegou ao meu conhecimento via compartilhamentos nas redes sociais: “Gente, alguém me dê uma ideia para um cartaz, please…!”, proclamava ele na ágora virtual. Até eu, que tive uma pitada de vontade de pagar alguém para levar um cartaz meu para as ruas (“Monopólio governamental de moeda fiduciária é roubo”), senti-me um idiota quando li este comentário. Aquele cidadão da massa agiu, neste caso, como o relógio cujos ponteiros estão parados, e que por isso duas vezes ao dia marca a hora certa. Sua nulidade o preveniu de praticar a pior tolice do indivíduo de massa: a de achar, embevecido por certa vaidade histérica, que seu cartaz será levado a sério, ou pior, até mesmo lido por quem quer que seja.

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XI. NULIDADES. Falando em nulidades, elas abundam! E como abundam! Eu, que prefiro uma cacofonia a uma nulidade, me estarreci com a revelação e exposição de tantas. Elas são legião (e olhem que para um ateu evocar mais uma expressão bíblica, a coisa está mesmo preta): há nulidades de idéias, nulidades de autoridade, nulidades de política.

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XII. IDÉIAS NULAS. O que dizer, em termos de conteúdo de ideais, sobre as manifestações? Começo por repetir o que foi mais dito: “não é sobre vinte centavos”. E desde quando uma NEGAÇÃO sobre alguma coisa diz algo sobre o que a coisa É? Querem outra? Lá vai: “ninguém pode se apropriar do sentido dos protestos, é uma manifestação espontânea, plural, aberta”. Mais uma – a prevalência de causas contra as quais é impossível não ser contra: “contra a corrupção”; “contra o aquecimento global”; “pela liberdade”; “pela salvação dos filhotes de foca”. Até “Abaixo Tudo” vi pichado. Parto com uma analogia matemática bem bestinha. O único número que continua o mesmo, não importando a troca de sinal positivo ou negativo, é o zero. Zero, também conhecido como nulo. Para mim, tudo o que se disse sobre estes eventos foi a expressão mais extrema da nulidade. A nulidade do nosso conhecimento, que nos impede de perceber o sentido das coisas como elas realmente são, transmudou-se em conhecimento da nulidade. O que importa agora nas análises é apenas dizer o que algo não é. Da nulidade, ao niilismo.

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XIII. AUTORIDADE NULA. Que os sistemas eleitorais baseados em eleições representativas afeminam a autoridade, não é novidade para ninguém. Idéias e estratégia para quê? Responsabilidade? Noblesse oblige? Glória, valor, honra, sabedoria, temperança? Governo dos bons e dos justos? Pffff… A autoridade hodierna é desprovida de qualquer conteúdo, e se resume à vitória na contagem numérica das urnas, o que por sua vez não deixa de ser uma espécie de ode à nulidade.

E a mistura só azeda. Desde que se chegou ao consenso de que o governo tem o dever de agir como um pirata, isto é, o de roubar a propriedade dos cidadãos produtivos para entregá-la aos não produtivos, a imensa classe das pessoas torpes viu nisso uma oportunidade de ouro. No Brasil, a disputa política se resume a quem vai ser o “atravessador” entre, de um lado, a subtração-tributação, e de outro, a “redistribuição” de renda mediante políticas públicas. Isso, apenas isso, é o poder. Apenas por isso se peleja, de forma que não é preciso muito para ser um governante bem sucedido.

Querem uma prova? A literatura “instrumental” para líderes é, no mínimo, milenar. Sun Tzu, Confúcio, Salomão, Maquiavel, no tempo deles, o mínimo que se exigia de alguém, civil ou militar, em posição de comando, era que tivesse estratégia – visão do que se quer, e visão dos meios dos quais se dispõem. O desejado, obviamente, quase nunca é compatível com o possível, mas nem por isso é menos essencial na equação do poder. O que se viu nestes dias foi exatamente o contrário disso: o governo não tinha estratégia. Nem na visão do que quer, nem do conhecimento dos meios que tinha. Nada, nenhuma.

Que o governo não tenha lido os clássicos, é compreensível. Compreensível, mas não é desculpa. Estas lições são há décadas requentadas em livros de auto-ajuda empresarial, de forma que qualquer governante minimamente instruído poderia navegar de vela cheia em cenário tão aprazível para o governo. “Mas não foi uma crise?” Que crise???? A massa foi extremamente dócil. Como assim? A massa não estava contra o governo – a massa foi pedir coisas ao governo! O tom geral dos protestos não era o de dizer para que o governo deixasse de fazer algo. Ninguém gritou “Fora Dilma e o Foro de São Paulo”! Os discursos não eram de resistência, eram de proposição! Reduzam-se todos os discursos caóticos a uma fórmula mais simples, e a grande maioria deles é “Queremos ALGO do governo”. Como se diz no jargão das pantomimas políticas, o que ocorreu não passou de um típico “protesto a favor”.

Pois bem, o governo neste cenário, gozando da plena confiança da massa inflamada de que era capaz e de que iria resolver os problemas desta, o que faz? Primeiro, nada. A repressão pelo uso da força foi tíbia e covarde. Em uma crise na qual dias valem por meses, o governo silenciou. E, quando decidiu fazer algo, foi uma sucessão atabalhoada de concessões impensadas nas questões de preços públicos, e na formulação amalucada de uma constituinte que se transformou em um plebiscito, e logo para “deliberar” sobre sistema eleitoral, uma das questões mais técnicas e árduas da ciência política moderna. Com boa parte deste texto já pronto, o governo me anuncia a importação de médicos cubanos (algo fede muito nessa história, e não são apenas charutos), e a servidão acadêmica dos médicos nacionais por dois anos.

Eu, sinceramente, não sei o que é pior. Se é pensar que isto tudo faz parte do saco de maldades da visão estratégica do PT na presidência da República, ou se é a crença histérica que rompantes de improviso vão resolver alguma coisa. Como acho que o segundo cenário é o mais provável, apego-me à minha interpretação de que isto é um sintoma de que as massas venceram a Rebelião, há muito tempo, e somos agora governados por nulidades. Cícero, que morreu nas crises do ocaso da República Romana, ainda podia exclamar “O tempora o mores!”, pela nostalgia de um passado virtuoso em tempos corruptos. Aqui no Brasil, nem isso fica bem: como lamentar pelos tempos e costumes, se vivemos a decadência de uma civilização que nunca foi merda nenhuma?

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XIV. POLÍTICA DA NULIDADE. O fato de a massa dócil ser governada por líderes nulos não faz com que impere a inércia e o acaso nos assuntos da política. Pelo contrário. É possível construir verdadeiros edifícios políticos tendo somente o discurso ideológico do niilismo por alicerce. “Quando as pessoas querem o impossível, somente os mentirosos podem satisfazê-las”, afirmou o economista conservador Thomas Sowell. A capacidade de ter por princípio o uso da mentira como ferramenta útil na disputa do poder é diabolicamente demonstrada por pensadores como Maquiavel e Gramsci. E se o poder agora pertence às massas, e estas, por definição, são ignorantes, a mentira basta ter uma carinha bonita, e um pouco de matemática para se justificar.

As massas acreditam histericamente que o governo deve e pode lhes dar alguma coisa, mas o conteúdo último dos pleitos é nulo. Para lá das platitudes, criticou-se o gasto público (em esportes, algo que a nossa Constituição manda incentivar), pedindo-se gasto público (em saúde e educação, algo que a mesma Constituição obriga). A soma disso tudo? Zero. As razões que fundamentam estes pleitos? Também nulas. Novamente citando a Rebelião das Massas:

“Sob as espécies de sindicalismo e fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão, mas que, simplesmente, se mostra resolvido a impor suas opiniões. Eis aqui o novo: o direito a não ter razão, a razão da sem-razão.”

Quando a nulidade se transforma em uma ferramenta política, quando, além disso, TODA a política gira em torno de nulidades, chegamos à triste conclusão de que o niilismo venceu. Teologicamente, acredito que isto tenha profundas repercussões cthulhianas. Para além de meus devaneios absurdistas e literários, as perspectivas filosóficas e políticas do niilismo não são menos aterradoras. Dado o fato de que a “existência existe”, o niilismo em suas versões extremadas como programa de poder pressupõe simplesmente a obliteração de tudo e de todos. Como disse Mikhail Bakunin, “a negação daquilo que existe… para o benefício do futuro que não existe”.

Deixemos a metafísica, e retornemos a categorias políticas mais concretas. Sobre a degeneração do niilismo moral já tratamos acima em VII. IGNORÂNCIA. Mas não nos esqueçamos de que a forma como o altermundialismo pretensamente enxerga a “sociedade”, dividida em “minorias plurais”, trata-se, na verdade, de uma forma de enxergar o indivíduo. O que os altermundialistas denominam de “identidade” é uma eleição arbitrária de características que reduz o indivíduo a estereótipos. O pluralismo não comporta a existência do indivíduo como reduto último de certos direitos, mas se expressa juridicamente em “direitos de grupos”. Algo muito parecido com o que Søren Kierkegaard anteviu como nivelamento, o processo de supressão da individualidade ao ponto em que a singularidade do indivíduo torna-se inexistente, e nada significativo em sua existência pode ser afirmada: “nivelamento é a abstração conquistando a individualidade”.

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XV. O NADA QUE “ELES” QUEREM. Na visão de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas:

É isso que você quer [Jim], o que todos vocês querem na verdade. Não é dinheiro, não são as coisas materiais, nem a segurança econômica, nem as mil coisas que vivem exigindo… […] Vocês querem coisas de graça, mas coisas de outro tipo. Segundo você, sou uma interesseira do espírito porque procuro valores. Então vocês, que vivem pregando o bem-estar social… Vocês querem saquear o espírito. Nunca pensei, nunca ninguém me disse como se podia pensar nisso, o que isso poderia significar: o imerecido em espírito. Mas é isso o que você quer. Quer amor imerecido, admiração imerecida. Quer grandeza imerecida. Quer ser um homem como Hank Rearden sem ter que ser o que ele é. Sem ter que ser nada. Sem… ter que ser.

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XVI. ALGUÉM QUE DISSE ALGUMA COISA.

Uma figura de projeção nacional desde logo disse alguma coisa contra estas manifestações. O pretenso Chefe da Casa Imperial do Brasil, Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, divulgou nota conclamando:

“Em vista da onda de protestos que se generaliza por todo o País, refletindo um fundo de insatisfação geral e evidenciando que pode haver nos bastidores quem esteja procurando tirar proveito desses acontecimentos, e ademais considerando o risco de envolvimento em atos de anarquismo, (o príncipe) julga que a prudência impõe aos monarquistas absterem-se de qualquer participação em tais manifestações.”

Este pronunciamento não me fez aderir à causa de Dom Luiz, é verdade, mas pelo menos reafirmou minha crença no sistema político da Constituição Imperial de 1824.

 

 

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