Parem de tentar mudar o mundo!

Karl Marx teria dito que o importante não era compreender o mundo, mas transformá-lo. Assim, da juventude irresponsável mal escapamos e já somos cooptados em universidades e outros locais muito respeitáveis a nos dedicarmos a única coisa considerada realmente importante na vida: mudar o mundo. É como se todos os erros e misérias do mundo estivessem ali, durante milênios, esperando apenas por nós para serem submetidos às nossas elegantes soluções. Não, nada do bom e velho senso comum, cheio de seus preconceitos tacanhos, nem das experiências tradicionais consagradas pelos séculos. O que são essas coisas diante do ímpeto a serviço de um mundo melhor?

Convictos que há algo muito errado nas engrenagens do cosmos, os revolucionários arremetem por aí contra as muralhas dos costumes acumulados sem se perguntar a quem interessa toda essa revolução. Para que conhecer a realidade se podemos mudá-la?

Um exemplo desse ímpeto. Logo nos primeiros dias de aula do meu curso de Direito, um professor de filosofia usou um método aparentemente inocente para “estimular o pensamento crítico”. Disse que estava ali para trocar conhecimentos conosco, para participar e que não era professor nem nada. Pediu-nos que fizéssemos um círculo com nossas cadeiras, coisa mais apropriada ao “debate” e disparou: “me digam, o que vocês acham da situação do mundo?”, ou alguma coisa assim. Os jovens alunos saíram um a um a apontar as coisas mais absurdas, e a notar como o mundo precisava mesmo ser corrigido.

No entanto, se repararmos bem, mudar o mundo não é coisa assim tão simples. A história está repleta de episódios mostrando alterações programadas com essa finalidade e seus resultados desaguaram invariavelmente no agravamento dos mesmos problemas, e até na criação de inúmeros outros. Isso porque a engenharia social, nome da técnica dessa quimera, é usada pelos revolucionários sempre com uma camada extra de verniz de bons propósitos, escondendo o objetivo real que é a destruição da civilização como a conhecemos.

Basta ver exemplos recentes das propostas progressistas e bem-intencionadas: todas produziram resultados infinitamente piores que a opressão a qual visavam eliminar:

1. Combater a criminalidade violenta foi a desculpa usada para adoção do estatuto do desarmamento, uma campanha nacional que criminalizou de forma mais dura o porte ilegal de armas, instituindo um intenso programa de desarmamento voluntário da população. “De que forma?”, perguntavam atônitos todos que até concordavam que diminuir a criminalidade violenta seria necessário (quem poderia contrariar isso?). “Ora, os bandidos conseguem armas roubando-as de você, pessoa de bem. Se vocês não tiverem armas não as dão aos bandidos, já que usá-las é muito perigoso”. Qual foi o grande resultado da campanha do desarmamento? A criminalidade diminuiu? Não. Pelo contrário, a cada ano 50 mil pessoas morrem para confirmar a suspeita que somos o povo mais assassino do planeta. Os responsáveis pela engenharia do desarmamento sabiam disso, é claro. Sabiam que bandidos não compram armas em lojas e que num assalto dificilmente conseguem os fuzis e metralhadoras que tanto adoram, mas não podiam dizer claramente que seu objetivo era o desarmamento da população civil. Não admitiríamos jamais que o desarmamento nada tem a ver com criminalidade, mas com aumento do controle do estado sobre as famílias e indivíduos.

2. Soa elegante dizer que os adolescentes estão numa condição peculiar de desenvolvimento e, por isso, antes de puni-los por seus crimes, é necessário educá-los. A adoção do ECA foi celebrada como uma dessas grandes leis que transformaria a realidade de crianças e adolescentes em situação de risco. Passados alguns anos, nunca adolescentes foram tão assediados pelo crime como hoje, servindo a toda sorte de propósitos maléficos, chegando ao ponto de, em razão da completa irresponsabilidade, poderem se dar o direito de filmarem homicídios e crimes hediondos como troféus de sua genialidade. E o que fazem os defensores desse projeto fracassado? Alguém bateu no peito e disse mea culpa? Alguém ficou ao menos ruborizado? Na verdade não: o ECA é um sucesso, e o próximo passo, que vai resolver tudo é a proibição de pais aplicarem castigos físicos como forma de disciplina.

3. Os movimentos de sem-terras, responsáveis por boa parte da violência no campo no passado recente, tiveram destinados milhares e milhares de reais para reforma agrária. Nunca tantas fazendas foram desapropriadas. Nunca tantos assentamentos criados. E isso numa situação em que a esmagadora maioria da população brasileira já não vive mais no campo. A violência no campo diminuiu? Não, ao contrário: dissidências do próprio movimento agora afirmam que é hora de corrigir as desigualdades nas cidades, e que invasões em prédios urbanos passarão a fazer parte dos “meios de luta”. Nenhuma palavra foi ouvida dos defensores da reforma agrária.

4. Os cubanos desfrutavam de um país com uma das melhores economias das Américas e produziam uma literatura das melhores. Sob o pretexto de livrar Cuba da exploração externa e instaurar um regime de justiça social, os comunistas conseguiram transformar a ilha num gigantesco presídio, com níveis de miséria inigualáveis. Basta lembrar que as famílias possuem “libretas” para anotar a distribuição miserável, mas igualitária, de arroz e papel higiênico. Algum revolucionário arrependido? Não. A miséria antes provocada pela exploração americana agora é causada pelo embargo comercial. Das contradições óbvias ninguém se dá conta, pois o que importa é a luta por um mundo melhor.

Esses são breves exemplos, e dos mais leves, do problema da transformação da realidade por meio da engenharia social. Não é necessário mencionar que as maiores atrocidades dos dois últimos séculos foram cometidas em nome de um mundo melhor. Em todos os casos não se chegou a nenhuma solução, somente se avançou muito na produção de novos problemas, que demandarão, por sua vez, mais soluções e, assim, numa torrente viciosa, a sociedade vai sendo gradativamente destruída e transformada em outra coisa pior, conforme advertira Russell Kirk: “os ideólogos que prometiam a perfeição do homem e da sociedade converteram grande parte do mundo no século XX em um inferno terreno”.

Por isso, quando alguém lhe sugerir aquele conselho de Marx, responda com os dizeres de Olavo de Carvalho: “O mundo seria melhor se não houvesse tanta gente prometendo melhorá-lo”

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8 respostas para “Parem de tentar mudar o mundo!”

    1. Isso, José Cláudio. Devemos tirar a trave do nosso olho antes de reparar no cisco dos olhos dos outros. Um grande abraço.

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